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Reescrevendo a Própria História: Um Relato de Superação – por Marta Vanuza

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Foi no “Lugar de Fala” que encontrou abrigo. Após décadas em silêncio, o grito saiu, a lágrima caiu, e aquilo que foi engolido pôde, enfim, encarar os olhos da multidão.

O que parece verso de um belo poema é, na verdade, a realidade descrita por Marta Vanuza em seu livro Chaves para a Liberdade -Relatos de Violência Sexual. Na obra, ela dá voz às milhares de pessoas que sofreram abusos sexuais neste país – silenciadas, acuadas, envergonhadas, carregando um sentimento de culpa.

Em Mato Grosso do Sul, dados do Ministério da Saúde registram, entre 2020 e 2024, 3.177 casos de violência sexual. Desse total, 2.398 envolveram vítimas de zero a 19 anos, o que representa 75% das notificações. Ou seja, crianças e adolescentes são três em cada quatro vítimas de violência sexual no estado. Dentre essas 2.398 vítimas, 2.091 (87,2%) eram meninas. O estado também lidera, proporcionalmente, o ranking nacional de estupros contra crianças e adolescentes.

Para que outras pessoas não se tornem apenas mais um número nas estatísticas, Marta Vanuza Gomes encontrou coragem para escrever sobre os abusos que sofreu. O resultado é o livro Chaves para a Liberdade – Relatos de Violência Sexual, publicado pela editora Artêra. A cerimônia de lançamento aconteceu no dia 16 de julho.

Em entrevista ao portal Educativa.MS, a autora compartilhou sua experiência.

Entrevista: Marta Vanuza Gomes

Educativa.MS: Qual é o título do livro e como ele surgiu?
Marta: Chaves para a Liberdade – Relatos de Violência Sexual surgiu quando eu tentei escrever sobre o Conselho Tutelar, órgão no qual atuei por oito anos. Mas nada fluía. De repente, comecei a escrever sobre minha história – os abusos sexuais dos quais fui vítima – na forma de estupro de vulnerável, assédio moral e sexual, e tentativa de estupro. Foi um processo de escrita doloroso, mas libertador. Ao final, senti que me libertei de prisões emocionais e, com o auxílio da psicoterapia, encontrei as “chaves” para a liberdade por meio da informação.

Educativa.MS: Como você descreveria a obra em poucas palavras?
Marta: Uma leitura impactante que revela os traumas e as sequelas da violência sexual, mas também uma história de superação e ressignificação. Traz reflexões sobre a importância da denúncia, da escuta ativa e da observação dos sinais.

Educativa.MS: Que mensagem principal você gostaria que o leitor levasse ao final da leitura?
Marta: Que a culpa nunca é da vítima. Que é possível alcançar a cura e ressignificar a própria história. Diante de uma situação de violência sexual, a omissão pode matar, mas denunciar pode salvar uma vida.

Educativa.MS: Qual foi a inspiração para escrever essa história?
Marta: Foi o meu interior gritando por cura e liberdade. Foi algo maior que minha vontade. Gosto de acreditar que foi uma inspiração divina, tanto para minha cura quanto para iluminar o caminho de outros que, assim como eu, estavam silenciados, aprisionados e na escuridão.

Educativa.MS: O livro é baseado em experiências pessoais ou é totalmente ficcional?
Marta: Totalmente pessoais.

Sobre o processo de escrita

Educativa.MS: Quanto tempo levou para escrever o livro?
Marta: Cerca de seis meses.

Educativa.MS: Você teve alguma rotina ou ritual específico para escrever?
Marta: Escrevia sempre de madrugada, assim que acordava geralmente entre 3h e 4h da manhã.

Educativa.MS: Houve momentos de bloqueio criativo? Como lidou com eles?
Marta: Sim, muitos. A escrita me trouxe de volta sentimentos difíceis, dor, tristeza, culpa, vergonha. Busquei ajuda profissional por meio da psicoterapia. Em alguns momentos fui orientada a parar ou até a não lançar o livro, mas algo maior me impulsionava a continuar.

Educativa.MS: Teve apoio de outras pessoas durante o processo, como leitores beta ou mentores?
Marta: Sim. Recebi apoio de uma colega assistente social, Catiane Duarte, que é uma referência literária para mim e me inspira à leitura contínua.

Sobre o conteúdo e propósito

Educativa.MS: Por que você escolheu abordar esse tema agora?
Marta: Porque a violência sexual é avassaladora e deixa marcas profundas na alma. Infelizmente, tem ocorrido de forma crescente, especialmente em ambientes familiares, onde os agressores são, muitas vezes, pessoas “acima de qualquer suspeita”. Isso contribui para a invalidação dos relatos, para a omissão, a impunidade, a continuidade da violência e o surgimento de novas vítimas.
Trazer esse debate é urgente – como forma de prevenção e combate à violência sexual, especialmente contra crianças e adolescentes.

Educativa.MS: O que diferencia esse livro de outras obras sobre o mesmo tema?
Marta: O livro é dedicado a todas as vítimas de violência sexual. Ele aponta caminhos que podem fazer a diferença na vida de quem precisa ouvir que é possível reescrever sua história.
Além disso, quem adquirir o livro também estará contribuindo para que uma criança ou adolescente receba acompanhamento psicológico na Associação Movimento Mãe Águia, pois 10% das vendas serão destinadas a essa instituição.

Educativa.MS: Que tipo de leitor você espera alcançar?
Marta: Qualquer pessoa interessada no tema, especialmente vítimas em potencial, famílias, líderes religiosos e profissionais da rede de proteção.

Sobre a autora:
Marta Vanuza Gomes da Silva é assistente social, especialista em Gestão de Política Pública e em Garantia de Direitos e Cuidados à Criança e ao Adolescente. Coautora do livro Comprometidos com o Seu Crescimento, ex-conselheira tutelar, perita judicial e, atualmente, técnica de referência nas Unidades de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes (UAICAS), lotada na Gerência de Alta Complexidade da Secretaria Municipal de Assistência Social.

Contato: @martinha.vanuza
Telefone: (67) 99353-5698

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