CRÔNICA

Os órfãos do feminicídio – Por Theresa Hilcar

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Enquanto mulheres continuam sendo assassinadas, um exército de crianças cresce carregando a dor de ter perdido a mãe — e, muitas vezes, também o pai — para a violência doméstica

Cada dia que leio sobre mais um feminicídio, é um dia doloroso. Acredito que, para qualquer pessoa minimamente sensível, o fato é lamentável. Nesta segunda-feira, enquanto escrevo, Mato Grosso do Sul soma 21 mulheres assassinadas em pouco mais de seis meses — o segundo estado do país com mais casos. Um escárnio com a vida de tantas mulheres, muitas delas mães.

Mas os números vão além. Até junho, 44 crianças ficaram órfãs. Agora são 49, com a morte de Salvadora, jovem de 22 anos, mãe de cinco filhos entre 2 e 8 anos. Transcrever esses dados causa um nó no estômago. Dói no corpo, na alma. Os dedos gelam no teclado, as mãos tremem. É a indignação diante de uma tragédia que se repete.

Penso nessas crianças. Sofro por elas. Algumas viram tudo. Outras ouviram gritos atrás da porta. Há bebês que, pouco antes da violência, estavam no colo da mãe. Crianças assustadas, sem entender por que a mulher que lhes dava afeto agora está ausente. E o agressor, tantas vezes o próprio pai, segue como fantasma na memória.

Feminicídio não mata só uma mulher. Desmonta uma família. Marca vidas inteiras. As crianças seguirão com cicatrizes — umas mais visíveis, outras mais profundas. Mas todas reais.

Elas terão de seguir. Ir à escola, brincar no pátio, sorrir em fotos de aniversários — mas carregando a ausência nos olhos. Algumas talvez encontrem um colo seguro. Outras, não. E muitas crescerão sem respostas, apenas com a sombra de um ato brutal que lhes arrancou o chão.

Essas crianças vão crescer. E a dor não dita também cresce. Vai para debaixo da pele, para os cantos da alma. A psicóloga  Márcia Noleto diz que há lutos que não têm nome — e que a ausência da mãe assassinada, ainda mais quando o pai é o agressor, instala um vazio que nem o tempo dá conta de preencher.

O trauma não tratado molda silenciosamente a vida adulta. Sabemos que as feridas que nunca se curam e a dor emocional não resolvida, podem levar a consequências mentais e físicas significativas, além de doenças psicossomáticas e dificuldades nos relacionamentos.

Confesso que tenho medo de que essa violência não tenha fim. Medo de que a gente se acostume. Medo de que os órfãos do feminicídio se tornem adultos sem esperança, sem referência, sem laço. Porque cada mulher assassinada deixa para trás uma história interrompida — e uma infância devastada. E se continuarmos permitindo que isto continue acontecendo, e com tamanha frequência, o futuro das próximas gerações estará seriamente comprometido.

Por tudo isto, é preciso gritar bem alto: BASTA! Os algozes são surdos.

Foto: Bruno Rezende

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