Nesta quinta-feira, o programa Agora 104 seguiu repercutindo os desdobramentos da denúncia feita pelo youtuber Felca sobre a erotização de crianças e adolescentes na internet, um problema que vai além da exploração por meio de vídeos e fotos. A questão inclui também o consumo de conteúdo inapropriado por menores de idade e a ausência de regulação que limite o alcance desses materiais em plataformas digitais, as chamadas big techs.
O debate público, no entanto, ainda se concentra majoritariamente na punição. Mas especialistas alertam: será que esse deve ser o foco principal?
O Brasil possui a terceira maior população carcerária do mundo, com mais de 800 mil presos, e ainda assim enfrenta dados alarmantes de violência sexual contra menores. Quase 70% dos casos de estupro infantil ocorrem dentro de casa. “Se punir resolvesse, o Brasil seria um exemplo de segurança”, destacou Felca durante sua participação no programa.
Confira no Agora 104:
Prevenção além da punição
O comunicador reforçou que é preciso ajustar o foco do debate para aspectos culturais e sociais: “Estamos diante de uma cultura que sexualiza corpos de crianças. O problema não se resolve apenas responsabilizando famílias, muitas das quais já vivem sob extrema pressão social e econômica.”
A fala ecoa a de especialistas como a advogada em Direito Digital e segurança da informação, Dayane Nascimento Fernandes, que defende o uso de plataformas de controle parental como medida essencial de proteção. “É importante que os pais adotem o monitoramento digital como prática comum. As ferramentas existem e podem ajudar bastante na prevenção.”
A realidade das famílias brasileiras
A servidora pública Eliane Martins, ouvinte do programa, compartilhou sua experiência ao limitar o tempo de uso de telas pelos filhos, enquanto Keila, advogada e mãe de uma menina de 9 anos, explicou que adotou uma série de medidas para reduzir a exposição da filha a conteúdos sensíveis.
Entretanto, Felca questiona a efetividade de medidas exclusivamente familiares: “A maior parte das mães brasileiras trabalha em jornadas exaustivas, muitas em mais de dois empregos. São quase 15 milhões de mães solo. Quem tem tempo de vigiar o que as crianças estão consumindo nas telas?”
Para ele, é necessário pensar em políticas públicas de apoio, como escolas de período integral de qualidade, creches públicas e acesso a serviços sociais básicos. “Responsabilizar os pais é uma visão míope. Precisamos dar condições reais para que essas famílias possam proteger seus filhos.”
A cultura da erotização infantil
O debate foi além das plataformas digitais. A cultura de hipersexualização precoce de meninas também foi duramente criticada. “Quantas mulheres que nos ouvem agora lembram com que idade seus corpos começaram a ser sexualizados nas ruas?”, provocou o comunicador. Segundo ele, essa cultura perpetua comportamentos de pedofilia disfarçados: “Pessoas que agem como pedófilos, mas não se reconhecem como tal.”
Felca também chama atenção para a romantização de termos como “novinha” e a normalização de conteúdos que sexualizam adolescentes. “Não adianta endurecer penas se a cultura permanece intacta.”
A necessidade de uma abordagem multidimensional
Para o delegado Dr. André Matsushita, que participou do quadro Fala Delegado, a prevenção deve ser prioridade. “Quando a punição entra em cena, o crime já aconteceu. Precisamos pensar em como evitar que ele ocorra.”
O consenso entre os participantes é claro: o debate sobre erotização infantil na internet não pode ser sequestrado por disputas políticas ou limitado ao campo da punição. A urgência é por um olhar mais amplo, que envolva legislação, plataformas digitais, famílias, escolas, políticas públicas e, sobretudo, uma transformação cultural profunda.
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