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“Assunto é Cinema” analisa a série documental brasileira “A Mulher da Casa Abandonada”

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O Assunto é Cinema, programa veiculado todas as quintas-feiras, a partir das 20 horas, na Rádio 104.7 Educativa MS, produzido pelos jornalistas Clayton Sales e Daniel Rockenbach, analisa a série documental brasileira “A Mulher da Casa Abandonada”, disponível no Prime Video.
Baseada no podcast narrativo homônimo de Chico Felitti, lançado em 2022, a produção aborda o caso Margarida Bonetti. A mulher vivia confinada em uma mansão abandonada em um bairro da elite paulistana. O repórter Chico Felitti descobriu que essa pessoa esquisita que surgia com o rosto todo maquiado de branco no interior da residência era uma foragida do FBI.
Confira o trailer:
Dirigido por Kátia Lund, a série atualiza fatos abertos no podcast e traz novas revelações, além de depoimentos inéditos. O principal é o de Hilda Rosa dos Santos, que trabalhou por anos para o casal Renê e Margarida Bonetti como empregada doméstica em condições de escravidão nos EUA. Para quem acompanhou o podcast há cerca de três anos, é possível notar de imediato o esforço da produção em não soar com uma mera versão audiovisual da obra sonora original.
Isso fica claro nos primeiros momentos do episódio inaugural, quando os propósitos da investigação são direcionados para a descoberta de novos elementos ao caso Margarida Bonetti. Era um recurso necessário por causa, entre outros fatores de toda repercussão do podcast, motivando cobertura dos principais meios de comunicação do país. Ou seja, os efeitos do furo jornalístico de Chico Felitti já estavam consolidados.
O passo seguinte foi, no jargão jornalístico, dar uma suíte ao caso, uma continuidade nas investigações. Nesse caminho, a série acerta em cheio, principalmente quando não cria tanto suspense para as novidades do caso. Elas já são distribuídas desde o início, tanto fechando lacunas abertas pelo podcast quanto abrindo novas inquietações, como, por exemplo, a incapacidade de autoridades brasileiras e americanas de capturar uma mulher procurada por autoridades dos dois países.
Os depoimentos de agentes do FBI e da polícia brasileira são usados com sabedoria porque expõem dois aspectos cruciais. Um deles é o empenho dedicado ao cumprimento do mandado de prisão de Margarida. O outro é a fragilidade técnica em executar essa tarefa antes do prazo de prescrição, que é quando um processo alcança sua “data de validade” determinada em lei e o réu não pode mais ser condenado.
Margarida Bonetti é um mulher ardilosa? Sim, mas os poderes judiciários e as forças de segurança pública de dois países não estão preparadas para uma situação assim? Outra revelação fabulosa e estarrecedora da série é a falta de tipificação penal para trabalho equivalente à escravidão no ordenamento jurídico americano. Tanto que o caso Margarida Bonetti serviu para que esse erro fosse corrigido com adequações específicas à lei americana sobre tráfico de pessoas.
O que contribuiu para isso foi o trágico calvário de Hilda dos Santos. Ela foi a pessoa que vivia sob condições de condições de escravidão na casa de Renê e Margarida Bonetti nos EUA, e que a série finalmente consegue colocar em evidência. No podcast, dona Hilda ainda não se sentia segura para expor seu lado, mas agora, ela contou tudo o que passou: condições desumanas às quais foi submetida, falta de salários, agressões físicas e o abandono de sua saúde.
A série também é feliz quando apresenta o contraponto às informações trazidas por dona Hilda. Há depoimentos de uma cabeleireira que atendia à família, incrédula sobre a capacidade dos Bonetti de cometerem crueldades, da advogada de Margarida Bonetti e da própria cliente, embora, como esclarecido no final dos três episódios, ninguém da família quis colaborar com a série. Por isso, as falas em áudio do podcast foram recuperadas e usadas no documentário.
“A Mulher das Casa Abandonada” é uma ótima produção que utiliza com equilíbrio e bom senso, recursos de dramatização e gráficos para dinamização da exposição de um tema tão delicado. Méritos para o excelente roteiro que mostrou diversidade de conteúdos sem deixar de destacar o principal: o lado de dona Hilda dos Santos, a vítima de um crime. Crime que ganhou o foco depois uma inesperada e até certo ponto negativa repercussão do podcast.
Não por culpa da produção, já que o podcast prestou um serviço enorme ao revelar um crime a partir de um mistério com ares de lenda urbana. Mas por conta da abordagem sensacionalista de vários meios de comunicação e da vulgarização abjeta comum nas redes sociais, que transforma tudo em moeda de engajamento sem qualquer critério. Agora, a série lança novas luzes e reforça o alerta sobre as armadilhas da escravidão contemporânea, escondidas, para variar, nas mansões da elite burguesa do país. Esse é o foco de uma denúncia tão importante para o país.

 

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