Por Alexandre Gonzaga
Neste último fim de semana, assisti quase por acaso ao filme Vitória — mais um trabalho brilhante de Fernanda Montenegro, que transformou em arte a história real de Joana da Paz.
Moradora da Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana, a senhorinha decidiu, no início dos anos 2000, registrar a violência do tráfico e a corrupção policial que marcavam sua vizinhança. Comprou uma filmadora e, da janela de seu apartamento, passou a documentar atividades criminosas ignoradas pelo poder público. Sua coragem lhe custou o anonimato e lhe rendeu um novo nome: Vitória. Foi tamanha a bravura que precisou entrar para o programa de proteção a testemunhas.
Enquanto acompanhava a narrativa, me vieram à mente lembranças pessoais de 1986, quando meu pai morava na rua Santa Clara, em um prédio novo, de fundos para o Morro dos Cabritos. Naquele endereço, que ainda respirava tranquilidade, vivia uma vizinha ilustre: Zilka Salaberry, a eterna Dona Benta do Sítio do Picapau Amarelo.
Embora nunca a tenha encontrado nos dias em que visitava meu pai, minha irmã e minha madrasta comentavam como Dona Zilka era gentil, sempre descendo no elevador muito perfumada e educada. Era uma presença quase mágica, que emprestava ao prédio um ar de encantamento infantil.
Com o tempo, no entanto, a paisagem mudou. O tráfico tomou conta, os edifícios passaram a ficar na linha de tiro entre criminosos e policiais, e a região ganhou um apelido sombrio: “Condomínio do Medo”. A Copacabana vibrante e alegre se transformava em palco de medo e silêncio.
O destino, às vezes, costura coincidências improváveis. Zilka faleceu em 2005, justamente o ano em que Joana da Paz iniciava suas solitárias filmagens e assumia a identidade de Vitória para sobreviver.
Joana Zeferino da Paz morreu em fevereiro de 2023, em Salvador, aos 97 anos — um ano antes da exibição do filme. Sob sua nova identidade, nunca mais voltou à Ladeira dos Tabajaras. Mas, no fim, Vitória venceu o medo.
Confira o Trailer:
Parabéns pelo excelente texto
Obrigado por nos acompanhar!