“Lembra de mim”? Eu conheci você lá nos meados dos anos 1970. Conheci e me apaixonei logo de cara, ou de ouvidos, melhor dizendo. Me lembro como se fosse ontem. Estava no banco de trás de um automóvel que cruzava a ponte JK em Brasília. Em uma mão eu carregava uma rosa azul – o que era inédito pois nunca havia visto uma rosa desta cor – e ao meu lado, alguém muito especial, timidamente, segurava a outra. Foi quando ouvi você pela primeira vez. O rádio do carro tocou a música “Abre alas” eu sabia que aquele momento seria inesquecível.
Depois, ao longo dos anos, vieram outros. Momentos e músicas. “Começar de novo” foi meu hino de independência. “Vitoriosa” me deu empoderamento, “Novo Tempo” surgiu como alento, “Daquilo que eu sei” colocou meus pés no chão. E ao ver você naquele programa de TV todas as lembranças vieram à tona, mais vívidas do que nunca.
Mas tenho que confessar uma coisa: estava há anos sem te ouvir. Não sei bem o motivo, mas de uns anos pra cá abandonei quase totalmente a música, principalmente a MPB. Acho que é a velhice chegando. Relembrar algumas coisas, principalmente as mais felizes, as vezes dói.
Lembro-me também da primeira vez que nos vimos: você estava se apresentando na UCE (União campo-grandense de estudantes), um local pouco apropriado para shows, devo dizer. Tocando lindamente seu piano, às vezes tocando de pé. Um espetáculo. Posso dizer, sob risco de parecer piegas, minha alma transbordou.
E aquele estado de encantamento me deu coragem para subir ao palco no final do show. Com pouca gente na plateia, pensei que o mico não seria assim tão grande. E afinal conhecer meu ídolo era tudo que eu mais queria. Você foi simpático e eu ganhei um beijo no rosto. Fui dormir em paz.
O segundo, anos depois, foi o ápice. Uma entrevista exclusiva me levou a ficar frente a frente com você. E esta história talvez você se lembre. Ao ligar o gravador e fazer a primeira pergunta eu cai em prantos. Não resisti a emoção de estar ali conversando com o artista que embalou minha vida.
E entre lágrimas falei o quanto sua música e as letras me emocionavam. Foi quando você disse que nunca havia feito uma letra.
O choro parou, a entrevista continuou sem atropelos. Mais tarde, ao final do show ao cumprimentá-lo no camarim você me disse de um jeito suava e gentil: “gostei muito da nossa entrevista”. E não, não tenho nenhuma foto para comprovar essas histórias. Eram outros tempos.
PS: que oitentão você se tornou, hem? “Ai, ai, ai, ai…”
Imagem gerada por IA
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