A execução brutal do ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, Ruy Ferraz Fontes, ocorrida na noite de segunda-feira (data recente), em Praia Grande (SP), provocou forte comoção e acendeu um alerta grave sobre o avanço e ousadia do crime organizado no Brasil. Fontes, que comandou a Polícia Civil paulista entre 2019 e 2022 e era secretário de Administração na cidade litorânea, foi morto por três homens fortemente armados com fuzis, em um ataque que, segundo autoridades, teve características paramilitares.
O assassinato foi tema do quadro “Fala Delegado”, do programa Agora 104, da FM Educativa MS, na manhã desta quinta-feira (18). O colunista e delegado de polícia Dr. André Matsushita, presidente da Associação dos Delegados da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, lamentou o crime e destacou a gravidade da situação.
“Recebi essa notícia com tristeza, indignação e inconformismo. Trabalhei com o Dr. Rui no DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa), em São Paulo. Era um delegado destemido, um verdadeiro herói brasileiro. Sua coragem no combate ao PCC e ao crime organizado marcou sua trajetória — e infelizmente, foi também o que o colocou na mira desses criminosos”, afirmou Matsushita.
Confira:
Crime planejado e recado à sociedade
Imagens do atentado circularam nas redes sociais, mostrando o momento em que o carro do ex-delegado foi perseguido, colidido contra um ônibus e alvejado com dezenas de tiros. O delegado André classificou o episódio como um ato de terrorismo e defendeu uma discussão urgente sobre a criação de uma lei antiterrorista e antimáfia no Brasil.
“Estamos diante de um novo patamar de criminalidade. Não se trata mais apenas de organizações criminosas. Essas facções são verdadeiros grupos terroristas. Executar um ex-delegado-geral na rua, em plena luz do dia, não é só um ataque pessoal. É um recado para todos os policiais, promotores, juízes e cidadãos de bem do país”, declarou.
Falhas na proteção pós-carreira
Questionado sobre o fato de Fontes estar sem segurança, mesmo após décadas dedicadas ao enfrentamento do crime organizado, Matsushita apontou um vácuo legislativo. “Não existe hoje nenhuma legislação que garanta proteção a autoridades aposentadas que atuaram no combate direto às facções. Isso precisa mudar. Uma eventual lei antiterror também deve prever esse tipo de salvaguarda”, defendeu.
Investigação em curso
A Polícia de São Paulo já prendeu uma mulher suspeita de transportar um dos fuzis usados no crime. Outros dois suspeitos foram identificados como participantes da execução. Veículos utilizados pelos criminosos foram apreendidos, sendo que um deles foi encontrado queimado. Fragmentos de DNA e impressões digitais estão sendo analisados. As investigações seguem sob sigilo.
Apesar do avanço nas investigações, Matsushita foi enfático: “Esses são apenas os executores. A Polícia precisa chegar aos mandantes, aos verdadeiros responsáveis por essa barbárie. É uma questão de honra”.
Clamor por mobilização
Ao final da entrevista, o delegado deixou uma reflexão direta à sociedade: “Quando celebridades são presas, vemos manifestações, protestos. Mas quando um delegado que dedicou a vida a combater o crime é executado, onde está a indignação da sociedade? Cadê o cidadão de bem? Precisamos reagir, cobrar dos nossos representantes leis que estejam à altura do desafio que enfrentamos”.
Fontes foi um dos responsáveis por investigações que levaram à prisão de Marcos Camacho, o “Marcola”, líder máximo do PCC. Atuou de forma incisiva contra o crime organizado ao longo de mais de 40 anos de carreira.
A sugestão de Matsushita é que o prédio do DHPP em São Paulo, onde ambos atuaram nos anos 1990, seja renomeado como Palácio da Polícia Civil Delegado Ruy Ferraz Fontes, em homenagem à sua trajetória e ao legado que deixou no combate ao crime.
Deixe um comentário