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Uma chance ao silêncio – Por Theresa Hilcar

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O barulho do mundo vem me cansando. A cidade está mais cheia de carros, buzinas, sons aleatórios, música alta e gente que grita. Ao lado de casa estão reformando, ou refazendo, um prédio antigo. Britadeira, bate estacas, sirenes, caminhões desembarcando material, caminhão retirando entulho começam logo cedo. Um barulho controlado, com hora para terminar. Menos mal. O que me incomoda mesmo são os barulhos cotidianos. Pessoas que falam muitos decibéis a mais, por exemplo, faz meu coração disparar. Tenho taquicardia. Pior quando muitos conversam ao mesmo tempo. Prática comum em bares e restaurantes e em alguns ambientes de trabalho. Aí é a danação, como diria o escritor Nelson Rodrigues. Nem fone de ouvidos resolve.

 Talvez sejam os reflexos do tal outono da vida. Talvez meus ouvidos estejam mais sensíveis com o passar do tempo. O que é interessante, já que a tendência é escutar menos. Mas há quem tenha escuta seletiva. Nos meus tempos de colégio interno, a octogenária diretora tinha a capacidade de ouvir – de longe – nossos cochichos. Mas quando alguém lhe chamava no corredor, geralmente para pedir alguma coisa, ela fazia ouvidos moucos, como se não fosse com ela.

Foi ela, aliás, quem me ensinou uma lição fundamental (foram várias, na verdade, mas vou citar apenas uma): nunca, jamais, arrastar uma cadeira. Aprendi como castigo, após passar algumas horas repetindo o gesto de levantar a cadeira, ao invés de arrastá-la. Aprendi e não esqueci. Por isto, a irritação me invade sempre que vejo – e ouço – o barulho irritante que as pessoas costumam fazer quando se levantam. Dona Maria Castro, a diretora do colégio, certamente não sobreviveria a estes tempos de tão pouca empatia. Em um mundo cada vez mais barulhento, o silêncio tem se tornado um artigo de luxo.

Alguém vai dizer que é preciso praticar a paciência e a aceitação. Para Sêneca e Epiteto, filósofos gregos: “aceitar o que escapa ao domínio do indivíduo era não apenas um ato de serenidade, mas uma expressão de sabedoria e liberdade”. Dizem que, enquanto se reconhece a inalterabilidade de certos aspectos da vida, o ser humano se emancipa da ansiedade e encontra uma paz que não depende das circunstâncias externas, mas da lucidez interior. Em suma, quase um estado budista de ser que está bem longe do meu alcance.

Prefiro pensar que em tempos de hiperconexão, dá necessidade falar sobre tudo, da obsessão com a competição e a produtividade, o silêncio, pela lógica transacional, é um ato de transgressão. Porque, no fim, a paz que encontramos no silêncio, é o que de verdade nos alimenta. É só ele e através dele que podemos vislumbrar um estado de paz, de encontro consigo mesmo.  Talvez, a liberdade não seja a multiplicação das possibilidades, mas o acolhimento sereno da impossibilidade. Saber que não se pode tudo, e ainda assim, continuar. Pensar, sentir, e viver, mesmo sob o véu espesso das mudanças, é o gesto mais profundo de lucidez que o espírito humano pode oferecer a si mesmo. Que tal dar uma chance ao silêncio?

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