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O Assunto é Cinema analisa a 2ª temporada da série “Wandinha”

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O Assunto é Cinema, programa veiculado todas as quintas-feiras, a partir das 20 horas, na Rádio FM 104.7 Educativa, produzido pelos jornalistas Clayton Sales e Daniel Rockenbach, analisou a 2ª temporada da série “Wandinha”.

NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales

A 2ª temporada da série “Wandinha”, disponível na Netflix. Ela traz de volta a jovem Wandinha Addams, retornando das férias à Escola Nunca Mais, destinada a excluídos com poderes especiais. Nesta fase, Wandinha enfrenta desafios mais perigosos, que mexem no passado de sua família, além de mais ameaças a seus amigos, especialmente a sua amiga e colega de quarto na escola Enid Sinclair.

Criada por Alfred Gough e Miles Millar, e comandada por Tim Burton, a série é um spin-off de “A Família Addams”. Se na 1ª temporada ela aprofundou na personalidade e na formação de laços de Wandinha, nos oito episódios da nova fase, a série explora mais suas virtudes e vulnerabilidades. A partir dessa premissa ambiciosa e arriscada, novas tramas são tecidas, conectando a protagonista a seus pais, especialmente Mortícia, tio Chico e a avó Hester.

O que impressiona de início e se intensifica nos quatro episódios finais é o equilíbrio entre a vocação satírica de “A Família Addams” e a nova perspectiva mais soturna apresentada nesta etapa. O sinal evidente é a jornada de Enid Sinclair, melhor amiga de Wandinha e antítese de sua personalidade. Culminando numa hilária troca de corpos, a saga da menina-lobo condiz com as transformações de uma adolescente comum em busca de identidade no mundo.

Só que o comum na série é alegorizado com os poderes especiais, no caso de Enid, o de virar lobisomem. Enid se converte numa coadjuvante de luxo, pois ganha um arco ao mesmo tempo, único e familiar. Ela é um dos pontos altos da temporada. A própria Wandinha, embora fiel à sua personalidade, agora convive com fragilidades mais tensas, como a perda de seu poder psíquico. Como ela lida com isso é uma das coisas mais legais porque sua altivez sarcástica sofre abalos muito provocantes.

Tecnicamente, para quem é fã de seu cinema, Tim Burton se sente ainda mais à vontade para gravar sua assinatura audiovisual em todos os episódios. Na 1ª temporada, havia uma contenção compreensível, já que prevalecia a necessidade de apresentar e consolidar os personagens.

Na 2ª, porém, Tim Burton pôde deixar as digitais mais nítidas, como no senso de realismo de suas criaturas fantásticas e a fotografia cheia de contrastes suaves onde a sombra é um espectro que persegue todos os personagens. Ao mesmo tempo, as cores também povoam a ambientação da série, formando movimentados painéis de sombra e luz que cativam por si só e servem como luva ao desenvolvimento da trama e subtramas.

É uma construção imagética extraordinária que envolve de uma maneira diferente, pois nos atrai para a treva, mas não subtrai seu caráter lúdico. Soma-se a isso, uma trilha sonora coesa, adequada e rica de Danny Elfman e Cris Bacon, com tonalidades que seguem a fórmula do equilíbrio marcante em Tim Burton entre o leve e o obscuro.

Sobre as atuações, o destaque é para Jenna Ortega, que mantém a excelente performance da fase anterior, mas dois outros trabalhos merecem menção: Emma Myers com sua Enid em uma verdadeira metamorfose e a melhor novidade da série, Evie Templeton, entregando uma personagem chamada Agnes De Mille, caloura de Nunca Mais, com poder da invisibilidade e fã obcecada de Wandinha a ponto de se tornar sua estranha stalker.

Se Tim Burton queria sacramentar sua marca nesse universo já consagrado, encontrou na jovem atriz britânica de 16 anos o pretexto perfeito. Além da interpretação cativante e do arco sensacional, seus olhos grandes foram tão bem explorados que Agnes se tornou tanto uma adição importantíssima ao enredo quanto um carimbo do estilo do cineasta.

A 2ª temporada de “Wandinha” é ainda melhor que a primeira, que já fora muito boa. Os roteiros de cada episódio se abriram a complexidades muito bem amarradas, salvo por brevíssimos tropeços devido a um leve excesso de personagens, mas no geral, acertou arestas da ótima fase anterior. A direção inventiva de Tim Burton, Paco Cabezas e Angela Robinson, a inclusão de deleitosas revelações sobre Gomez e até sobre Mãozinha, além de uma experiência visual de prender a atenção do início ao fim, são atributos que tornam a série uma das melhores produções televisivas dos últimos anos.

“Wandinha” parece finalmente encontrar o momento certo de se emancipar dos cânones da HQ original e da siticom que satirizam, por meio da linguagem do terror, o modelo de família americana e embarcar em águas mais audaciosas. E deixa ganchos muito empolgantes para a já confirmada 3ª temporada, prometendo ainda mais ambição, mensagens oportunas sobre inclusão e preconceito e, claro, entretenimento de primeira.

Confira trailer oficial: 

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