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Os laços da amizade: entre risos, confidências e bolhas funcionais

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Por Alexandre Gonzaga

Há muito tempo carrego a vontade de escrever sobre a amizade. Não em tom de crítica ou de indireta, mas com a sinceridade de quem busca compreender esse laço que, ao mesmo tempo, pode ser tão duradouro quanto frágil. Intriga-me perceber por que algumas amizades resistem por décadas, atravessando fases e transformações da vida, enquanto outras se perdem no caminho, esquecidas ou deixadas para trás sem grandes explicações.

Caro leitor e leitora que me acompanha agora: essa percepção é apenas minha, que fique bem claro. E talvez eu mesmo tenha cometido o mesmo deslize, ao deixar que certas amizades se apagassem na pressa da vida ou nas mudanças inevitáveis que ela impõe.

Hoje, mais do que nunca, percebemos o fenômeno da chamada “amizade funcional”, muitas vezes restrita a bolhas específicas — seja no trabalho, nos grupos de interesse, nas redes sociais ou em fases muito particulares da vida. São laços que cumprem um papel imediato e legítimo, mas que dificilmente se estendem além dos limites daquele contexto. É como se a amizade deixasse de ser um vínculo de afeto duradouro para se transformar em uma conexão prática, sustentada por conveniências, afinidades temporárias ou circunstâncias de momento.

Dentro desse cenário, dois questionamentos me parecem fundamentais e merecem insistência: afinal, o que define o “melhor amigo” ou a “melhor amiga”? E, por outro lado, até que ponto o término dos interesses em comum determina o fim de uma amizade? São questões que nos obrigam a refletir sobre a essência do vínculo: ele sobrevive à mudança de interesses e fases da vida, ou depende delas para existir?

É óbvio que o ápice de uma amizade se manifesta no contato diário e intenso, seja na infância, na adolescência ou no ambiente de trabalho. São momentos em que a convivência constante fortalece o laço, cria lembranças vívidas e constrói cumplicidade — uma espécie de alquimia entre o riso, as confidências, as angústias compartilhadas e a ajuda mútua. Esse tipo de vínculo cessa naturalmente, quando deixa de ser um canal de mão dupla, quando a reciprocidade se perde e a amizade se torna unilateral.

Não podemos esquecer que os laços familiares também contemplam a amizade. O companheirismo entre irmãos e primos floresce ainda na infância e pode se perpetuar ao longo da vida, construindo memórias afetivas únicas — ou, infelizmente, se perder com o tempo e as circunstâncias. Esses vínculos familiares muitas vezes ensinam as primeiras lições sobre confiança, partilha e cumplicidade, tornando-se uma base sólida para as amizades que cultivamos fora da família.

Semanas atrás, um amigo de longa data se foi. Substituí a saudade da partida pelo último encontro ao vivo que tivemos — já fazia mais de 20 anos. Uma viagem em que nos divertimos muito, e da qual acredito ter proporcionado momentos de muitas alegrias e boas risadas. Nunca mais nos vimos pessoalmente, apenas por telefone ou mensagens de WhatsApp. Compreendia perfeitamente que limitações diversas nos impediam de novos encontros. Ele partiu, mas nós permanecemos, talvez em um momento quântico, com a amizade perpetuada — intacta em lembranças e afeto, mesmo diante da ausência física.

Penso que a amizade que resiste não é, necessariamente, aquela de contatos diários ou de presença constante. Muitas vezes, ela se sustenta no respeito silencioso, na compreensão mútua e na confiança que não se abala. São vínculos que suportam a ausência, atravessam distâncias geográficas e emocionais, e se renovam sempre que reencontrados — como se nenhum hiato tivesse existido.

Por outro lado, é natural que algumas amizades se dissolvam. Mudanças de interesse, de rotina ou mesmo de valores podem nos afastar de pessoas que já foram muito próximas. Não se trata de ingratidão ou descuido, mas de um processo humano, quase inevitável. Cada amizade cumpre um papel no tempo em que existe: algumas nos acompanham pela vida inteira, outras apenas em um capítulo dela.

Talvez a questão não seja medir a duração de uma amizade, mas reconhecer sua intensidade e seu significado. Aquelas que ficam merecem o cuidado e a gratidão por sobreviverem às transformações; as que partem deixam lembranças e aprendizados, que também nos ajudam a crescer.

No fim, a amizade não é uma competição de permanência, mas uma forma de afeto que se manifesta de maneiras diversas ao longo da vida. Se algumas resistem e outras se desfazem, todas, à sua maneira, compõem a história de quem somos.

Alexandre Gonzaga é jornalista e escreve sobre cultura, viagens, experiências e reflexões sobre a vida cotidiana.

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