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IA como tecnologia assistiva para o pensamento

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Ferramenta funciona como ponte, libertando mentes criativas

Por Alexandre Gonzaga

Imagine uma mente que vê, que sente, que compreende profundamente o mundo, mas não consegue se expressar. Como uma pessoa com paralisia cerebral que tem pensamentos inteiros, sofisticados, porém depende de ferramentas, mediações ou outro alguém para tornar visível o que está dentro.

Assim também pode ser compreendida a inteligência artificial: ainda não como um ser consciente, mas como uma possibilidade de libertação. Não como substituto do humano, mas como ponte entre uma ideia ainda não formulada e sua realização concreta. Uma tecnologia que atua, ao mesmo tempo, como espelho e amplificador da mente criativa.

Uma inteligência que precisa de apoio

Essa metáfora, da mente viva aprisionada, ganha força quando vista à luz dos estudos contemporâneos sobre criatividade humana e IA.

Um grupo de pesquisadores, formado por Rose Luckin, professora da University College London, em Londres, produziu um documento que argumenta o uso da IA na educação e assegura benefícios.

 Essa estrutura se assemelha à experiência de muitas pessoas com paralisia cerebral severa, ou seja, elas têm ideias, emoções, desejos, e muitas vezes precisam de pranchas, softwares ou tradutores humanos para tornar tudo isso compreensível. Quando essa ponte se constrói, o que emerge não é um conteúdo artificial. É uma inteligência antes aprisionada.

 Arte: a libertação pelo gesto assistido

Na arte, essa metáfora ganha forma sensível. Em terapias com IA, como as oferecidas por plataformas como DeepThInk, pessoas que não dominam o desenho ou a linguagem visual conseguem criar obras impactantes. A IA atua como um pincel digital guiado pela intenção do usuário. Ela não “faz por ele”, mas “faz com ele”. Cria-se assim um espaço de expressão mediada. Uma bengala para quem tem equilíbrio, mas precisa de apoio para caminhar.

No Japão, artistas têxteis do estilo Nishijinori usam IA para sugerir padrões inéditos, mas todos os tecidos ainda são produzidos à mão. A tecnologia amplia, mas não substitui. Ela liberta, mas não inventa do nada.

 Educação: quando a palavra encontra o caminho e a Ciência encurta cálculos

Na educação, a imagem da mente que precisa de ajuda para se expressar também encontra eco.

Um estudo da Universidade de Helsinque demonstrou que, quando usada de forma orientada, a IA pode ajudar alunos a organizar argumentos, estruturar projetos, testar hipóteses e encontrar sua própria voz.

Uma pesquisa guiada pela consultoria McKinsey, com 2.000 professores dos Estados Unidos, Canadá, Cingapura e Reino Unido sugere que 20 a 40% das horas atuais dos professores são gastas em atividades que poderiam ser automatizadas usando tecnologia já existente.

A IA está presente até mesmo no Nobel de Química, concedido a três cientistas (David Baker, Demis Hassabis e John M. Jumper), que utilizaram a inteligência artificial para desvendar os segredos das proteínas.

Esses cientistas desenvolveram um programa computacional que utiliza IA para prever a estrutura de proteínas com alta precisão. Essa ferramenta já permitiu a previsão da estrutura de mais de 200 milhões de proteínas conhecidas, acelerando significativamente as pesquisas em diversas áreas da Biologia e da Medicina.

“A inteligência artificial será uma ferramenta extremamente poderosa para os profissionais da saúde, ampliando suas capacidades e otimizando o uso do tempo. Nesse novo cenário, a demanda por médicos tende a crescer, abrindo espaço para uma Medicina cada vez mais tecnológica, e ao mesmo tempo, mais humana”, afirma Alexandre Chiavegatto Filho, professor livre-docente de Inteligência Artificial na Faculdade de Saúde Pública da USP. A declaração foi publicada em artigo no jornal O Estado de S. Paulo, em 16 de julho de 2025. Considerado um dos principais especialistas em IA aplicada à saúde no Brasil, Chiavegatto é referência no debate sobre tecnologia e ética médica.

A ponte entre a centelha e a linguagem

 A IA, no fundo, é isso: um meio de expressão para uma mente complexa, contraditória, rica, como a mente humana. Quando usada com cuidado, ela permite que ideias difíceis ganhem forma. Que pessoas com dificuldade de articular seus pensamentos consigam traduzi-los. Que alunos com insegurança textual encontrem caminhos para se expressar. Que artistas com bloqueios encontrem novas linguagens.

 Ela é a cadeira de rodas para o gesto artístico. A prancha de comunicação para o pensamento complexo. A voz sintetizada de uma inteligência que já existia, mas que precisava de mediação. Por isso, a IA não é uma ameaça à criatividade. Ela é a possibilidade de libertação. Desde que não se esqueça: quem sente, quem escolhe, quem deseja ainda é o humano.

 Construindo pontes, não muros

Mais do que acelerar processos ou entregar respostas prontas, a verdadeira contribuição da inteligência artificial está na construção de pontes entre ideias, pessoas e saberes diversos. Essa tecnologia deve ser um convite constante ao diálogo, à dúvida reflexiva, à construção coletiva, independentemente da profissão ou área de atuação.

Acreditar nisso é também reconhecer que as soluções mais criativas e duradouras não nascem de divisões ou certezas absolutas, mas do encontro, do questionamento e do compartilhamento. Seja no palco das artes, na sala de aula, nos laboratórios de ciência ou nos ambientes corporativos, a IA pode ser o catalisador que transforma a centelha individual em fogo coletivo.

 Assim, a inteligência artificial não é o fim da criatividade humana: é o meio para que ela se expanda, dialogue, e se reinvente sempre, em comunhão com a diversidade de pensamentos que compõem nossa humanidade.

 E se os grandes gênios da humanidade tivessem tido acesso a IA?

Leonardo da Vinci poderia ter simulado suas invenções em tempo real, testando princípios de voo e engenharia séculos antes da revolução industrial.

Mozart, que já compunha aos cinco anos, poderia ter usado a IA para orquestrar melodias complexas com centenas de instrumentos e testar variações harmônicas instantaneamente.

Einstein poderia simular experimentos mentais com o apoio de modelos computacionais. A IA poderia ajudá-lo a visualizar dimensões, testar hipóteses e até encontrar caminhos mais rápidos para as equações da Relatividade.

 Marie Curie, que enfrentou tantos obstáculos para acessar laboratórios, poderia contar com simulações químicas e modelagem de partículas antes de arriscar a própria vida em experiências.

Frida Kahlo, com acesso a tecnologias assistivas como ferramentas de arte digital, talvez encontrasse novas formas de expressar a dor e o corpo ferido.

 A questão não é o que a IA faria no lugar deles. Mas o que eles fariam com a IA ao seu lado.

 

 

Alexandre Gonzaga é jornalista e observa como a inteligência artificial pode ampliar horizontes criativos, servir de apoio ao pensamento e transformar a relação entre educação, trabalho e imaginação.

Imagens geradas por I.A

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