Por Alexandre Gonzaga
Os anos 1980 foram, talvez, os mais criativos e efervescentes da música pop e do rock brasileiro. Uma época em que guitarras, sintetizadores e letras pulsavam como o retrato de uma juventude inquieta.
Na minha opinião, aquelas canções guardam memórias auditivas que moldaram uma geração de jovens. E muitos deles sequer imaginavam que o precioso walkman, companheiro inseparável, se tornaria peça de museu. Hoje, é raro encontrar um exemplar em feiras de antiguidades, mas basta vê-lo para que se acenda uma faísca de nostalgia e um brilho no olhar dos 60+.
Minha lembrança musical mais vívida daquele período vem do Kid Abelha e da despretensiosa banda Metrô, com sua vocalista Virginie Boutaud, a francesinha sem sotaque, atriz e modelo que trouxe um charme singular ao pop nacional. Quando sua voz suave ecoava nos refrões, a língua portuguesa parecia se fundir à leveza parisiense, criando algo novo e inesquecível.
Já Paula Toller e o Kid Abelha desenhavam uma trilha que falava de amores ingênuos e rebeldias de esquina, inspirando muitos muros secretamente pichados com refrões.
Eram essas canções que, em fita cassete, acompanhavam minhas viagens intermináveis até a casa do meu pai, em Dourados (MS), tornando cada quilômetro menos solitário e enfadonho. Virginie, com Beat Acelerado e o enigmático Sândalo de Dândi, se repetia como trilha insistente naquela paisagem insólita e cansativa.
O Kid Abelha rodou muitos quilômetros comigo. “Deixa eu ler seu pensamento, deixa eu ser seu espião, ver você dormir me corta o coração”, até “Grand’ Hotel”, minha preferida, que sempre me transporta para as férias da adolescência à beira da praia do Porto Grande Hotel, em São Sebastião, no litoral norte de São Paulo.
Outra lembrança musical que embala minha memória vem do auge das grandes casas de bingo, onde DVDs eram as grandes atrações. Foi ali que reencontrei o Kid Abelha Acústico MTV (2002) e percebi que aquelas músicas, que marcaram tantas viagens da adolescência, agora ganhavam uma nova dimensão. O salão colorido e acarpetado, digno de um cassino de Las Vegas, as luzes dançando sobre as mesas e o cardápio farto e gratuito, com rodízio de pizzas e almoços, completavam a cena. Cada acorde se transformava em uma celebração. Uma “pintura íntima”, a redescoberta da banda que já havia sido trilha sonora dos meus sonhos, das minhas primeiras emoções e de tantos momentos de vida.
Aos 63 anos, a musa da banda, Paula Toller, segue com a mesma graça e encanto da jovem garota que conquistou gerações, mantendo sua energia vibrante e irreverente.
Essas músicas não eram apenas sons, eram códigos de pertencimento. Estar com o fone nos ouvidos era como ter um passaporte para um mundo só nosso, onde cada batida traduzia uma emoção que ainda não sabíamos nomear. Eram letras despretensiosas em um mundo dividido por muros e incertezas. Hoje, são letras carregadas de verdades em um mundo tomado pela desinformação.
No fim, talvez seja isso que os anos 80 nos legaram: não apenas hits, mas lembranças queridas que resistem ao tempo, gravadas não em vinil ou fitas, mas em nossos corações.
O melhor dos anos 80 foi uma arte final que atravessa o mundo contemporâneo, sempre à espera de um retoque total.
Alexandre Gonzaga é jornalista e escreve sobre cultura, viagens, experiências e reflexões sobre a vida cotidiana.
Muito legal.
Obrigada por prestigiar.
Obrigada por prestigiar o trabalho do nobre jornalista.