O Assunto é Cinema, programa veiculado todas as quintas-feiras, a partir das 20 horas, na Rádio FM 104.7 Educativa MS, produzido pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach, revisita “Brasil – O Filme”.
NOTA E REVISÃO – Daniel Rockenbach
“Brasil – O Filme”, longa dirigido por Terry Gilliam. A trama acompanha o burocrata Sam Lowry em um estado totalitário administrado por máquinas e tecnocratas como ele. Em meio a sua rotina protocolar, Sam sonha com um céu azul e limpo onde ele voa com sua musa inspiradora ao som de “Aquarela do Brasil”. Quando desperto, Sam lida com a monotonia de uma vida controlada por sua mãe e seu chefe.
“Brazil” é uma sátira com livre inspiração no clássico “1984” de George Orwell. Os paralelos entre os protagonistas e seus arcos dramáticos são visíveis. Tanto Sam Lowry como Winston Smith são operários em uma máquina estatal que os consome diariamente. Ambos estão carregados de um desejo que os leva a uma ruína perante o mesmo estado que os vigia constantemente. O roteiro de Terry Gilliam, Charles McKeown e Tom Stoppard ainda abraça um tom kafkiano com alguma inspiração no clássico “O Processo” e toda sua burocracia sem sentido.
A mistura de referências gera um mundo caótico e visualmente magnífico graças ao talento artístico de Terry Gilliam em criar cenários fantásticos a partir de maquetes e efeitos práticos. Existe beleza no cinza da cidade cheia de cabos e canos em que a trama se passa, bem como nos sonhos do protagonista. Ao contrário do que se pensou na época, “Brazil” nada tem a ver com o Brasil, muito menos com a abertura política que o “país do futuro” estava vivendo.
A inspiração veio de Port Talbot, no País de Gales, uma cidade industrial onde tudo é coberto com pó de minério de ferro. Ao acompanhar o pôr do sol no porto, Gilliam ficou encantado com o contraste entre o azul do céu e o cinza de fuligem na praia. Lá ele pensou a imagem de um cidadão ouvindo rádio enquanto admirava o cenário ao som de músicas como “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, canção conhecida apenas como “Brazil”, no exterior. A música levava o ouvinte magicamente do mundo desolado e cinza para uma realidade utópica e bela.
O tom sarcástico de Gilliam acrescenta uma nova camada ao gênero distópico, principalmente quando contrasta o personagem na vida real e em seus sonhos. A exaltação do indivíduo pelo amor é conduzida em composições cheias de cor embaladas pelo clássico de Ary Barroso. Já a realidade mundana é repleta de distorções e ambientes claustrofóbicos. A mãe de Sam e sua disputa por melhor plástica com a amiga fazem parte de um conjunto de elementos que torna o longa ainda mais insólito, consolidando na época a assinatura de Gilliam como cineasta.
A atuação de Jonathan Pryce como Sam Lowry conduz o espectador por esse mundo com competência. É aos seus olhos que se percebe que não existe nada além de concreto e indústria em “Brazil”, não existe escape dos protocolos da burocracia para além da propaganda e das câmeras sempre vigilantes do estado. Além de Gilliam, outro ex-Monty Python que dá as caras é Michael Palin como Jack Lint, um agente do governo aparentemente inofensivo que no final está apenas obedecendo às ordens de seus superiores. O filme ainda se dá ao luxo de contar com Robert De Niro como o terrorista Archibald ‘Harry’ Tuttle, um papel curioso, no mínimo.
Geoff Muldaur executa a versão de “Aquarela do Brasil” na trilha orquestrada por Michael Kamen. A versão da icônica composição brasileira conta ainda com vocais de Kate Bush, deixando tudo mais lírico. A força do longa se projeta justamente na canção e nas sequências oníricas em que ela é executada. O “Brazil” do título não se refere a um lugar e sim à canção, como já disse o próprio Terry Gilliam quando questionado sobre onde o filme se passava.
“Brazil” de Terry Gilliam quase se chamou “19841/2”, em uma alusão ao clássico de Orwell e o amor do cineasta pela obra de Fellini. Fato é que o humor do grupo inglês Monty Python trouxe a Terry Gilliam a possibilidade de trabalhar a sátira de um texto tão pesado como o de Orwell e, ainda assim, provocar o riso e a reflexão, tudo embalado em uma produção esteticamente impecável.
Confira o trailer:
O longa está disponível na Amazon Prime Vídeo.
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