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Entre o Amor e os Estigmas: o Legado de São Francisco, Dona Magda, Nami e Flow

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Por Alexandre Gonzaga

Outubro começou com um símbolo de amor e termina com outro grande estigma secular e perverso, mas isso explico mais adiante. Logo no dia 4, celebrou-se São Francisco de Assis, o santo que fez da simplicidade um caminho e da compaixão sua forma de fé. Padroeiro dos animais, da natureza e dos pobres, Francisco é lembrado por ter renunciado à vida de luxo para viver entre os mais humildes, pregando o respeito a todas as criaturas.

A data, que recorda sua morte em 3 de outubro de 1226, tornou-se um convite à reflexão sobre o valor da vida em cada ser que compartilha o planeta conosco.

Aqui no Brasil, celebramos os caramelos, frajolas, fiapos de manga, rajadinhos e laranjinhas que hoje dominam as “curtidas” nas redes sociais. Entre vídeos de miados, pulos e lambidas, eles conquistam corações e provam que a pureza do afeto não depende de pedigree.

Nos lares e nas telas, os animais sem raça definida — nossos vira-latas de alma generosa — vêm ganhando espaço e derrubando preconceitos, um olhar de gratidão por quem cuida, acolhe e alimenta.

Adotar um animal é, antes de tudo, um ato de amor. Talvez o mais genuíno que exista, tanto para o tutor quanto para o animal. Não há promessa de recompensa financeira, nem expectativa de reconhecimento. Eles não perguntam de onde viemos, quanto ganhamos ou se estamos de bom humor, apenas chegam, silenciosos, e nos amam como somos.

E quem acredita que os gatos são seres independentes ou distantes, engana-se. Eles nos seguem até o banheiro, se aninham onde nos sentamos ou deitamos. É uma conexão profunda com quem cuida deles. Há apenas entrega. E é nessa entrega silenciosa, entre um olhar de confiança e um gesto de cuidado, que nasce uma forma rara de afeto: o amor incondicional. Os bichos nos aceitam como somos — nos dias bons e nos dias em que o mundo pesa.

Nunca imaginei que seria tutor de uma gatinha. A Nami chegou sem aviso, como quem é guiada pelo destino. Apareceu um dia, assustada, com o olhar perdido, quase desesperado. Parecia desorientada, buscando apenas um alento para sua aflição.

Eu, que não planejava ter um gato, fui sendo adotado por ela aos poucos , no silêncio dos gestos, no olhar que pedia abrigo, no ronronar que preenchia a casa. Nami me ensinou que o amor não precisa de planejamento, apenas de acolhimento. Que, às vezes, quem chega pedindo cuidado vem, na verdade, para cuidar da gente.

E, olhando para ela, percebi que talvez não fosse coincidência. Nami parecia um chamado, uma mensagem viva de uma senhora que fez parte da minha vida e que amava os bichos. Acho que a dona Magda, lá do alto, estava tentando se comunicar comigo de algum jeito, e pedindo para que eu acolhesse a gatinha ainda filhote.

Nami

Dona Magda foi uma dessas protagonistas silenciosas. Seu trabalho voluntário, na cidade gaúcha de Cachoeira do Sul, era movido por empatia, coragem, amor e fé. Mobilizava a comunidade, veterinários e amigos em campanhas de castração de cães e gatos, evitando o abandono e a dor de tantos bichos sem lar. Não havia vaidade em seu gesto, apenas um compromisso genuíno com a vida.

Seu projeto São Francisco de Assis a acompanhou até o fim da vida, aos 80 anos. Deixou alguns gatinhos órfãos, que foram acolhidos pelos filhos. Um deles partiu recentemente, justamente no dia 4 de outubro — mais um sinal de que dona Magda ainda nos envia mensagens.

Talvez Nami tenha vindo para me lembrar disso: que o amor verdadeiro, aquele que São Francisco pregava e que Magda praticava, é o tipo de amor que age, cuida, transforma e permanece.

Mas o mês termina com outra celebração — de origem pagã, mais tarde incorporada pelo cristianismo: o Halloween, ou Dia das Bruxas (31 de outubro). Historiadores apontam que a festa surgiu entre os celtas, em homenagem aos mortos, na celebração do Samhain, quando se acreditava que as barreiras entre o mundo dos vivos e dos mortos desapareciam.

O termo Halloween vem de All Hallows’ Eve — “véspera do Dia de Todos os Santos”. A tradição chegou aos Estados Unidos no século XIX, e não por acaso o Dia de Finados foi instituído em 2 de novembro pela Igreja Católica.

Divertido e cada vez mais popular no Brasil, o Dia das Bruxas traz consigo um antigo símbolo de superstição: o gato preto. Desde a Idade Média, acreditava-se que os felinos, por seus hábitos noturnos, tinham ligação com o demônio — e, se fossem pretos, considerados a cor das trevas, eram vistos com ainda mais desconfiança.

Assim, no imaginário medieval, o gato preto tornou-se inseparável da figura da bruxa e de sua vassoura voadora. No século XV, o papa Inocêncio VIII (1432–1492) chegou a incluir os gatos entre os perseguidos pela Inquisição, a campanha sangrenta da Igreja Católica contra supostas heresias e bruxarias.

A perseguição atingiu seu auge na Inglaterra do século XVI, época em que cresceu rapidamente a população de gatos nas cidades. Conta-se que, em uma noite de 1560, em Lincolnshire, um gato preto foi apedrejado e, ferido, refugiou-se na casa de uma senhora conhecida por acolher animais de rua. No dia seguinte, ela também apareceu machucada — o suficiente para o povo concluir que era uma bruxa e o gato, seu disfarce noturno.

Já havia fake news e negacionismo científico naquela época. As cidades europeias medievais eram insalubres e malcheirosas, pela falta de saneamento básico e pela superpopulação. Ironia do destino: os felinos poderiam ter evitado milhões de mortes durante a Peste Negra, ao controlar os ratos que transmitiam a doença e infestavam as grandes cidades como Londres e Paris.

Mas, voltando ao legado de Dona Magda — ela acolheu e protegeu dezenas de animais que apareciam à porta de sua casa, em Cachoeira do Sul, como quem entende que o verdadeiro amor não se alimenta de superstição, mas floresce no respeito, na reverência e na gratidão pela vida.

Ela partiu antes da tragédia climática que assolou o Rio Grande do Sul em 2024, quando milhares de animais ficaram isolados e sem tutores. Acredito que, de alguma forma, ela soprou no ouvido dos brigadistas o chamado para o socorro aos bichos.

Recentemente, uma mensagem psicografada atribuída a ela dizia que “estava com muito trabalho”. Tenho certeza de que estava, abrindo novas frentes, amparando vidas e inspirando corações que ainda lutam por compaixão e abrigo.

Curiosamente, o cinema também ecoou essa mensagem. O filme “Flow”, vencedor do Oscar de Melhor Animação de 2025, conta a história de um gato preto e solitário que tem sua vida interrompida por uma inundação global. A produção da Letônia comoveu o mundo e contribuiu significativamente para o aumento da adoção de gatos pretos, ajudando a desmistificar antigos preconceitos e a mudar a forma como enxergamos esses felinos — outrora perseguidos, hoje símbolos de resistência, sensibilidade e recomeço.

Talvez o amor que São Francisco pregava, o que Dona Magda viveu e o que Nami me ensinou seja, no fundo, o mesmo amor que o pequeno gato preto de Flow tenta reencontrar em meio às águas: aquele que resiste, mesmo quando o mundo parece submergir. Porque amar é isso, um ato silencioso de fé. É estender a mão quando todos recuam, é enxergar beleza no que o medo tentou apagar. E, entre o amor e os estigmas, seguimos aprendendo que toda vida pede cuidado, toda dor pede abrigo e todo encontro, por mais improvável que pareça, é um chamado para recomeçar, com coragem, ternura e a certeza de que, onde há compaixão, a luz sempre encontra passagem, mesmo nas sombras.

Alexandre Gonzaga é jornalista e escreve sobre cultura, viagens, experiências e reflexões sobre a vida cotidiana.

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