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Vendo casa de vó: quando o design endurece e a nostalgia atrai

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Por Alexandre Gonzaga

A casa da minha avó, Zilda Beozzo do Amaral, não era apenas uma moradia. Era um convite. Um deleite de guloseimas preparadas por ela, de acolhimento e paz, onde filhos, netos, tios e sobrinhos se encontravam para um lanche da tarde ou um almoço aos domingos. Mas, em outra ocasião, falarei do seu lado da vó quituteira.

O arquiteto e urbanista André Gomes (Acesse) tem registrado, na capital paulista, esses mesmos aconchegos: casas arejadas, construídas entre as décadas de 1930 e 1940, no estilo missões.

O arquiteto se tornou “caçador de casas de vó” e bombou no Instagram com fotos de casinhas memoráveis. Algumas são idênticas à da minha avó, em Campinas (SP), com seu terraço revestido de caquinhos de cerâmica colorida — reflexo de um tempo em que o lar se abria para o mundo sem medo. Ninguém dizia que era cafona ou fora de moda. Nossa arquitetura é tão especial que é mencionada como “casa brasileira” em programas de TV e revistas, valorizando ainda mais essa memória afetiva.

Tenho a sensação, e reconheço que é uma percepção muito pessoal, de que o design, o estilo e a arquitetura acompanham o momento vivido pela humanidade.

Nos anos dourados do pós-guerra, por exemplo, os carros com lanternas traseiras de barbatanas (“rabo-de-peixe”) refletiam o poder conquistado e o otimismo da prosperidade. Eram veículos longos, imponentes, exuberantes como o espírito da época.

Esses cadillacs dominavam as ruas, com suas carrocerias aerodinâmicas, para-choques e grades cromadas. Era o prenúncio da corrida espacial e o desenvolvimento dos jatos militares e comerciais. Até os brinquedos eram espaciais, foguetes, naves e robôs. Sem falar do design futurista dos eletrodomésticos: aspiradores de pó, liquidificadores, batedeiras de bolo, e que hoje voltam como objetos retrôs e vintage a preços que podem ultrapassar facilmente os R$ 6 mil.

Já a moda, nessa época, também traduzia o otimismo e a confiança que transbordavam nas ruas. As mulheres vestiam saias rodadas e coloridas ajustadas à cintura. Os homens usavam ternos bem cortados. Os tecidos nobres falavam de um mundo que acreditava no progresso e na elegância cotidiana. Vestir-se era um ato de celebração, na minha percepção.

As roupas acompanhavam o compasso da música, das danças e das conversas de calçada. Eram extensões do corpo e da alegria de viver. O design, nesse contexto, cumpria seu papel de expressar pertencimento e entusiasmo.

Mas, aos poucos, esse brilho foi se apagando. A moda, assim como a arquitetura e os automóveis, começou a refletir outro sentimento: o da urgência, da eficiência, da defesa.

Uma recessão econômica e as tensões mundiais da década seguinte impuseram ao planeta um novo ajuste. A Crise dos Mísseis em Cuba, em 1962, a chegada do homem à Lua, em 1969, e a Crise do Petróleo, em 1973, redesenharam as esperanças e os limites da humanidade. Tudo isso colaborou para a diminuição das coisas, para a busca da praticidade e para uma estética mais contida.

Os carros encolheram. A moda, igualmente, se tornou mais minimalista. As saias rodadas deram lugar às minissaias e aos vestidos tubinho, de estampas geométricas e inspiração espacial. A década foi marcada pelo estilo mod — mais estruturado e futurista — e pelo estilo hippie, com roupas largas, leves e fluidas.

A juventude acreditava que governaria o mundo, impulsionada pelos festivais de rock e pela contracultura. Surgiram a roupa unissex e o uso de tecidos metálicos, traduzindo o fascínio pelo novo e pela liberdade de ser.

Nascia também uma arquitetura arrojada e retilínea, marcada por um protagonismo brasileiro com a construção de Brasília, símbolo de um país que ousava desenhar o futuro em linhas de concreto e horizontes abertos.

A música representou um período de criatividade revolucionária, tanto no Brasil quanto no restante do mundo, marcado por experimentações, fusões de estilos e novas formas de expressão que refletiam o espírito de liberdade da década.

Essa tendência se manteve nas décadas seguintes, assim como os desafios globais, marcados por crises econômicas e conflitos.

Já os anos 1980 ficaram conhecidos como a “Década Perdida”, devido à grave crise econômica, à instabilidade política e à hiperinflação que afetou profundamente o Brasil.

Na minha visão, essas décadas, de 1980 a 1990, foram realmente perdidas: um período de estagnação, marcado por uma mistura de estilos que beirava uma estética caótica.

A música acompanhou esse clima, com composições simples, muitas vezes bobas, mas divertidas — criadas apenas para entreter ou distrair, sem instigar reflexão.

Enfim, chegamos aos anos 2000. As casas se tornaram verdadeiros “caixotes”, quase todas iguais, com entradas que mais lembravam portais de fortalezas do que lares acolhedores.

Os carros, por sua vez, se transformaram em verdadeiros blindados de guerra, exibindo um design agressivo, quase intimidante, refletindo um mundo cada vez mais fechado e desconfiado.

E o que dizer da moda contemporânea? As calças não passam pela minha canela, como se a roupa precisasse nos reduzir a proporções minúsculas. Sapatos sem meias e camisas fitness.

Então surgem as canetas “emagrecedoras” como acessórios para nos adequarmos a essa moda.

Mais do que estilo, essas escolhas refletem uma cultura de eficiência, uniformidade e uma falsa proteção, na qual o corpo se torna quase um objeto a ser moldado e controlado.

Assim como nas casas e nos carros, o design da moda contemporânea traduz o endurecimento das relações humanas: ambientes, objetos e roupas que isolam, blindam e padronizam, deixando pouco espaço para vulnerabilidade, espontaneidade ou afeto.

O que começou como liberdade estética e expressão pessoal — nas décadas douradas e na efervescência dos anos 1970 — transformou-se, ao longo do tempo, em frieza e isolamento.

Talvez seja hora de refletir sobre como o design poderia voltar a humanizar: casas que acolhem, carros que conectam, roupas que expressem sem aprisionar. Reaprender a baixar os muros de concreto e do coração pode ser o primeiro passo para recuperar a dimensão afetiva e compartilhada daquilo que construímos, vestimos e habitamos.

O endurecimento foi tanto que, hoje, até a venda de imóveis tenta atrair compradores com promessas de nostalgia: “Vendo casa de vó”.

Alexandre Gonzaga é jornalista e escreve sobre cultura, viagens, experiências e reflexões sobre a vida cotidiana.

Fotos: André Gomes

Capa: Arquivo

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