O programa da FM Educativa 104.7 de Mato Grosso do Sul,“O Assunto é Cinema” desta semana revistou Halloween: A Noite do Terror”. Produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach, o quadro vai ao ar todas as quintas, às 20h (horário de MS), pela rádio Educativa 104.7 FM.
NOTA E REVISÃO – Daniel Rockenbach
O ASSUNTO É CINEMA revisita “Halloween: A Noite do Terror”, a obra-prima do horror de John Carpenter. A trama acompanha a jovem Laurie Strode em Haddonfield, Illinois, na noite em que o psicopata Michael Myers foge do manicômio em que estava preso. Em 1963, o jovem Myers matou a própria irmã a sangue frio no Halloween, agora em 1978, na mesma noite festiva, ele retorna atrás de novas vítimas se tornando o bicho papão de toda uma comunidade.
Carpenter constrói o medo explorando o ponto de vista do assassino: o olhar do espectador é conduzido pela câmera como se fosse o olhar de Michael Myers, uma perspectiva que subverte a lógica tradicional do terror — em vez de acompanharmos a fuga da vítima, passamos a enxergar o mundo pelos olhos do predador. Essa inversão cria uma sensação constante de vulnerabilidade e antecipação, redefinindo o modo como o público experimenta o medo.
A fotografia de Dean Cundey, em parceria com Carpenter, utiliza lentes amplas e movimentos longos de câmera para transformar as ruas tranquilas de Haddonfield em um labirinto de tensão. Cada sombra e cada esquina se tornam potenciais ameaças, compondo um clima de terror psicológico que vai além da simples perseguição. O diretor gastou boa parte do valor do orçamento apertado nas câmeras para criar uma sensação de imersão quase hipnótica — o espectador sente que o perigo está sempre por perto, mesmo quando nada acontece. Essa alternância entre câmera subjetiva e objetiva é discutida até hoje entre estudiosos do cinema.
O visual icônico de Michael Myers nasceu por obra do acaso. A produção improvisou uma máscara de Halloween do Capitão Kirk, de Jornada nas Estrelas, com a face do ator William Shatner pintada de branco, com os olhos recortados e sem expressão. A máscara acabou caracterizando o ícone do terror que marcaria gerações. A ausência de traços faciais fez de Myers um símbolo do mal, um bicho papão, como dizem os personagens do filme — uma figura esvaziada de emoção, que mata sem motivo, sem remorso e sem identidade.
Outro elemento indispensável ao sucesso de “Halloween” é a trilha sonora composta pelo próprio Carpenter, gravada em poucos dias antes da estreia. O tema principal, marcado por um ritmo simples e hipnótico, tornou-se um dos mais reconhecíveis da história do cinema. A música amplifica a tensão de forma magistral, alternando silêncio e repetição em um crescendo de puro nervosismo. É impossível imaginar o filme sem as notas agudas que anunciam o perigo.
A estreia de Jamie Lee Curtis marcou o nascimento de uma das figuras mais icônicas do cinema de horror. Como Laurie Strode, a atriz trouxe uma combinação de vulnerabilidade e força, transformando a jovem babá comum na personificação da “final girl”. Sua atuação sustenta a tensão do filme. A relação dela com o gênero slasher vem de berço, ela é filha de Janet Leigh, a vítima da cena do chuveiro do clássico “Psicose”, uma das referências para Carpenter em seu filme.
Com “Halloween: A Noite do Terror”, John Carpenter não apenas criou um clássico, mas estabeleceu as bases do cinema slasher moderno. Elementos como o assassino mascarado, a “final girl” e o uso calculado da trilha sonora se tornaram convenções do gênero, imitadas por décadas em produções como “Sexta-Feira 13” ou “Pânico”. Mais de quarenta anos depois, “Halloween” segue sendo o modelo essencial de como o medo pode ser construído com simplicidade, ritmo e genialidade — e como um cineasta independente redefiniu o terror com uma câmera, uma máscara e uma ideia brilhante. O filme está disponível no serviço de streaming Darkflix.
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