Por Alexandre Gonzaga
Dias atrás, enviei para uma pessoa reportagem sobre economia criativa. O motivo era simples: ela também é artesã, e imaginei que o conteúdo pudesse inspirá-la, já que um dos trabalhos apresentados se assemelhava ao que ela desenvolve. A matéria, de tom extremamente positivo, reunia diferentes exemplos de produção artesanal. No entanto, foi justamente o trecho sobre o uso de pedras na confecção de peças decorativas e bijuterias que despertou sua atenção. Não pelo aspecto técnico ou criativo, mas por uma leitura ideológica. De forma imediata, ela associou o tema aos rompimentos das barragens de mineradoras, em Brumadinho (2019) e Mariana (2015), tragédias que provocaram mortes, devastação ambiental e impactos socioeconômicos duradouros.
A situação evidenciou algo que pesquisadores vêm apontando com frequência: muitas pessoas estão cada vez mais condicionadas a enxergar perigos onde eles não existem, presas em bolhas informacionais que moldam sua percepção da realidade.
O InternetLab, em parceria com a organização Rede Conhecimento Social (ReCoS), investigou esse fenômeno na pesquisa “Vetores e implicações da desordem informacional na América Latina”. O InternetLab é um centro independente de pesquisa interdisciplinar que promove debates acadêmicos e produz conhecimento sobre direito, tecnologia e internet, atuando como ponte entre acadêmicos, governos, empresas e sociedade civil.
A pesquisa, lançada recentemente, revelou uma desconfiança generalizada: diante do volume de informações e da dificuldade em verificar sua veracidade, os usuários tendem a recorrer a suas próprias redes e fontes de confiança, construindo ecossistemas informacionais paralelos.
Entre os resultados, destaca-se que as plataformas da Meta, como WhatsApp, Facebook e Instagram, lideram o uso na América Latina, seguidas pelas ferramentas do Google, especialmente o YouTube e o próprio buscador. No Brasil, o YouTube aparece como a principal plataforma de acesso à informação (83%), enquanto na América Central o TikTok se consolida como preferência (71%). O consumo de informações na região é marcadamente multimídia e multiplataforma: sete em cada dez respondentes afirmam recorrer a diferentes meios para se informar, combinando redes digitais, televisão e rádio.
No compartilhamento de notícias, o comportamento também varia entre países. No Brasil, predominam o WhatsApp e o Instagram, enquanto o Facebook tem baixo uso (31%). Já no México, a mesma rede é amplamente utilizada para esse fim, alcançando 69% dos respondentes.
A pesquisa revela ainda um forte ceticismo quanto à veracidade das informações que circulam nas mídias. Mais da metade dos entrevistados acredita que grande parte das notícias é falsa.
Quando o assunto é credibilidade, profissionais e especialistas são vistos como as fontes mais confiáveis para tratar de temas como segurança pública, política e saúde. Mesmo assim, o público brasileiro se destaca por depositar maior confiança em pessoas próximas, como familiares e amigos, e até em si próprio: uma parcela significativa afirma considerar-se fonte confiável sobre esses assuntos.
O estudo reforça que as bolhas informacionais não apenas limitam o acesso a diferentes perspectivas, como também alimentam a polarização e a percepção distorcida de riscos.
O episódio que relatei no início ilustra isso de forma concreta: ao compartilhar o conteúdo justamente por ela ser uma artesã, percebi como a leitura foi instantaneamente filtrada por lentes ideológicas, levando a associações com tragédias sem qualquer relação direta.
Ainda tentei explicar: “Mas eu te enviei apenas porque o texto traz uma artesã da sua área” (rs). Ela nem respondeu. E foi aí que percebi, com mais nitidez, o quanto a percepção das pessoas está contaminada, moldada por filtros emocionais e narrativas prontas que substituem a escuta e o contexto.
Mais do que nunca, torna-se essencial investir em alfabetização midiática, incentivar o consumo crítico de informações e promover espaços de diálogo entre diferentes visões. Só assim será possível transformar o que hoje funciona como uma arena de conflito digital em um ambiente de debate construtivo e de esclarecimento coletivo.
Assim como o coliseu era, na Roma Antiga, um espaço de entretenimento em que o público, distante das feras e dos gladiadores, decidia quem seria condenado ou absolvido, as redes sociais de hoje reproduzem essa lógica, só que com teclados no lugar das lanças.
Opiniões se transformam em julgamentos instantâneos, e muitos chegam a cometer ataques morais ou crimes, protegidos pelo anonimato das telas, numa falsa sensação de empoderamento.
Se há um conselho possível, é este: o cidadão ou cidadã que realmente deseja mudar algo ou contribuir para o bem comum precisa sair de trás das telas, abandonar o conforto das bolhas e participar da vida pública de forma concreta, dialogando, ouvindo e construindo pontes no mundo real.
Alexandre Gonzaga é jornalista e escreve sobre cultura, viagens, experiências e reflexões sobre a vida cotidiana.
Imagem gerada por I.A
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