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Da COP30 para dentro de casa: o desafio global da consciência climática

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Por Alexandre Gonzaga

Já não se trata de falar em mudança climática. Esse termo, segundo especialistas, ficou para trás. O planeta não está mais em transição; estamos imersos em uma nova era, marcada pela urgência climática, por eventos extremos e pela necessidade de adaptação, se não quisermos ser extintos. O alerta é claro e global.

Mas essa transformação de paradigma começa em cada indivíduo, em pequenas atitudes cotidianas que, somadas, podem redefinir o nosso futuro comum.

Os olhos do mundo se voltam, neste mês de novembro, para Belém, palco da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30). Entre os dias 10 e 21, líderes mundiais, cientistas e representantes da sociedade civil discutirão caminhos para enfrentar a emergência climática, uma crise que já não admite postergações.

Mais do que acordos diplomáticos, a COP30 simboliza um chamado à consciência. O planeta pede ação, que começa dentro de casa, com gestos simples que também educam as próximas gerações.

Sempre achei pertinente a frase: “o lixo é um grande desperdício”. Nos dias de hoje, é impensável o descarte de alimentos e a perda de produtos ao longo de grandes distâncias, enquanto tantas comunidades ainda convivem com a escassez e a fome. A lógica da abundância deu lugar à urgência da eficiência, e isso vale para todos os setores.

Na construção civil, por exemplo, o reaproveitamento de materiais, evitando o descarte excessivo em reformas, e o uso de tecnologias sustentáveis já não são tendências, mas exigências éticas e econômicas.

No campo, práticas regenerativas e o manejo consciente da água e do solo tornaram-se diferenciais de competitividade e sobrevivência.

Ainda na construção civil, seguimos construindo casas onde as calhas servem apenas para evitar inundações nos telhados, um grande desperdício de um recurso que se torna cada vez mais escasso: a água. Cisternas deveriam integrar políticas públicas e programas habitacionais nas grandes cidades.

Evoluímos na adoção da energia solar como fonte de eletricidade e conforto imediato. A tendência é positiva, mas muitas vezes movida apenas pela economia financeira. Enquanto isso, as tragédias climáticas continuam ceifando vidas e destruindo comunidades.

Nas cidades, o transporte coletivo de baixo carbono, o avanço de tecnologias com supercondutores, como os Maglevs, trens de levitação magnética, a arborização urbana e a gestão correta dos resíduos são pilares de uma nova convivência com o planeta.

Dentro de casa, a separação do lixo e o aproveitamento de resíduos orgânicos para compostagem, que pode, inclusive, embelezar o jardim, são comportamentos urgentes, que deveriam fazer parte da rotina de todos.

O uso de embalagens retornáveis, desde as sacolas de supermercado até a logística reversa de produtos, é outra prática essencial que precisa ser incorporada ao cotidiano. O vidro, por exemplo, é um material 100% reciclável e reaproveitável, amplamente utilizado no acondicionamento de alimentos, bebidas e perfumes. Além disso, é a única embalagem indicada para a doação de leite materno, o que reforça seu valor ambiental e social.

Outra iniciativa relevante é o programa “Boti Recicla”, do Grupo Boticário, considerado o maior programa de reciclagem com pontos de coleta do Brasil. O projeto transforma embalagens vazias de qualquer marca em novos insumos, utilizados em diferentes setores do grupo e em ações sustentáveis espalhadas pelo país. O programa abrange embalagens de plástico, como cremes, shampoos e sabonetes líquidos, vidro, como perfumes, e aerossóis, como desodorantes.

A consciência climática, portanto, não se resume a grandes conferências ou metas internacionais. Ela nasce no cotidiano, quando escolhemos reduzir o desperdício, consumir de forma responsável e valorizar políticas públicas sustentáveis. A verdadeira transformação não virá apenas dos líderes reunidos em Belém, mas de cada cidadão disposto a enxergar que preservar o planeta é preservar a própria vida.

Lavar demoradamente a calçada, ignorar uma goteira na pia ou tomar longos banhos são atitudes que aceleram o colapso ambiental. A catástrofe climática não se resume à queima de combustíveis fósseis que saem dos escapamentos dos carros ou das chaminés das fábricas; ela se manifesta em gestos diários, concretos, que repetimos sem perceber.

Os refugiados e deslocados climáticos já são uma realidade. Basta lembrar o que aconteceu com cidades inteiras devastadas pelas enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024. A natureza não espera. A hora de agir, como espécie, sociedade e consciência, é agora.

Os ciclos hidrológicos do planeta estão cada vez mais imprevisíveis. Na agricultura, pesquisadores correm contra o tempo para que diversas culturas se adaptem a períodos extremos de seca. Preservar nascentes e corrigir o assoreamento dos rios exige investimentos gigantescos, mas sem eles a vida se tornará insuportável.

O desafio da nossa geração é compreender que não há planeta de reserva, nem tempo a perder. Cada decisão, por menor que pareça, carrega o poder de transformar o curso da história. A consciência climática é mais do que uma pauta ambiental; é uma nova ética de sobrevivência. E ela começa agora, com cada um de nós.

Alexandre Gonzaga é jornalista e escreve sobre cultura, viagens, experiências e reflexões sobre a vida cotidiana.

Imagem gerada por I.A

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