O acordo de livre comércio firmado entre o Mercosul e a União Europeia promete ir além dos grandes exportadores e abrir uma nova frente de crescimento para a agricultura familiar no Brasil. A avaliação foi feita pelo ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira. O ministro destacou o potencial do tratado para aumentar renda, agregar valor aos produtos e facilitar o acesso de pequenos produtores ao mercado europeu.
A repórter Neli Terra tem mais informações. OUÇA:
O acordo, concluído após mais de duas décadas de negociações, cria um marco comercial entre dois blocos que juntos reúnem cerca de 720 milhões de consumidores. Para o Brasil, ele reduz ou elimina tarifas de importação para uma série de produtos agropecuários e industrializados, além de simplificar regras sanitárias, fitossanitárias e de origem, pontos críticos para quem produz em menor escala.
No caso da agricultura familiar, o impacto pode ser relevante. O Brasil tem hoje cerca de 3,9 milhões de estabelecimentos familiares, responsáveis por algo próximo de 7 em cada 10 alimentos que chegam à mesa dos brasileiros, segundo dados oficiais do setor. Apesar disso, a participação desse segmento nas exportações ainda é limitada, concentrada em nichos como cafés especiais, frutas, mel, cacau, queijos artesanais e produtos orgânicos.
Com o acordo, muitos desses itens passam a entrar na União Europeia com tarifas reduzidas ou zeradas ao longo do tempo. Em termos simples, isso significa preços mais competitivos lá fora e maior margem para quem produz aqui. Para o ministro Paulo Teixeira, o tratado cria condições para que pequenos produtores deixem de vender apenas matéria-prima e avancem na industrialização local, agregando valor e renda no campo.
Outro ponto destacado pelo governo é o estímulo à organização produtiva. Cooperativas e associações tendem a ganhar protagonismo, já que facilitam o cumprimento de exigências técnicas, rastreabilidade e padrões ambientais, requisitos cada vez mais valorizados pelos consumidores europeus. Hoje, produtos com certificação de origem, sustentabilidade ou comércio justo costumam alcançar preços mais altos no mercado internacional.
Do ponto de vista econômico, a União Europeia já é um dos principais parceiros comerciais do agro brasileiro. Em 2024, o bloco respondeu por cerca de 20% das exportações do setor para mercados desenvolvidos. A expectativa é que, com o acordo em vigor, esse fluxo cresça de forma gradual, com espaço específico para produtos de maior valor agregado e menor escala, perfil típico da agricultura familiar.
O tratado também traz desafios. Pequenos produtores precisarão se adaptar a regras rígidas de qualidade, sanidade e sustentabilidade. Por isso, o governo brasileiro aposta em políticas de assistência técnica, crédito rural direcionado e apoio à certificação para que a agricultura familiar consiga aproveitar as oportunidades abertas pelo acordo.
Se bem implementado, o acordo Mercosul-União Europeia pode marcar uma mudança estrutural. Em vez de depender apenas do mercado interno ou de atravessadores, agricultores familiares brasileiros poderão ter uma vitrine internacional mais acessível, com potencial de transformar produção local em renda estável, emprego no campo e desenvolvimento regional.
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