Durante muito tempo, o orelhão foi sinônimo de comunicação acessível no Brasil. Instalados em esquinas, praças e rodoviárias, eles garantiram ligações para milhões de pessoas antes da popularização do celular. Agora, esse símbolo urbano está perto da extinção definitiva.
A repórter Neli Terra tem mais informações. OUÇA:
Dados da Agência Nacional de Telecomunicações mostram que o número de telefones de uso público despencou nos últimos anos. No início da década passada, o país tinha mais de 1 milhão de orelhões. Em 2024, esse total já havia caído para menos de 20 mil aparelhos, concentrados principalmente em áreas remotas, pequenos municípios e regiões com acesso limitado à telefonia móvel ou à internet. Em grandes capitais, encontrar um orelhão virou exceção.
O principal motivo para esse desaparecimento é o fim das concessões de telefonia fixa. As empresas que herdaram a obrigação de manter o serviço, firmado nos contratos de privatização dos anos 1990, deixaram de ser obrigadas a conservar os aparelhos. Com a migração do modelo de concessão para autorizações, validada por mudanças regulatórias e acompanhada pela Anatel, as operadoras passaram a ter liberdade para retirar os equipamentos das ruas.
Na prática, o uso também caiu de forma drástica. Levantamentos do setor indicam que, em média, menos de 1 em cada 100 brasileiros utiliza um orelhão ao menos uma vez por ano. O avanço do celular explica esse cenário. Hoje, o Brasil tem mais de 250 milhões de linhas móveis ativas, número superior ao total de habitantes, segundo dados oficiais do setor de telecomunicações.
A previsão é que a extinção quase completa ocorra até 2027, restando apenas alguns aparelhos mantidos por decisão local ou em áreas muito específicas, como comunidades isoladas da Amazônia ou regiões de fronteira, onde o sinal móvel ainda é instável. Mesmo nesses casos, projetos de expansão de internet via satélite e redes móveis devem reduzir ainda mais a necessidade do serviço.
Orelhão é peça da história
O primeiro orelhão brasileiro surgiu no início da década de 1970, em um projeto liderado pela Telebras. O design em formato de concha, criado para abafar o ruído das ruas, virou marca registrada do país e ganhou versões icônicas nas cores laranja e azul. Durante décadas, filas para usar o telefone público fizeram parte da paisagem urbana, especialmente em datas comemorativas e feriados.
Um dado curioso é que o Brasil se tornou referência internacional no conceito de telefone público de grande escala. Em seu auge, o sistema brasileiro era considerado um dos maiores do mundo em número de aparelhos instalados. Os famosos cartões telefônicos, colecionados por muita gente, também viraram objeto de memória afetiva e até de mercado entre colecionadores.
Hoje, os poucos orelhões que resistem funcionam mais como lembrança de uma era analógica do que como ferramenta essencial. O avanço tecnológico tornou o celular onipresente, barato e multifuncional, algo impensável quando o orelhão dominava as ruas.
O desaparecimento desses aparelhos marca não apenas uma mudança no setor de telecomunicações, mas também no comportamento social. Se antes era preciso procurar uma cabine para fazer uma ligação, hoje a comunicação cabe no bolso. O orelhão, que conectou o Brasil por décadas, caminha para se tornar definitivamente parte da história.
Foto: AgênciaBrasil
Deixe um comentário