A União Europeia discute uma guinada que pode redesenhar a forma como empresas provam responsabilidade ambiental e social. No início de dezembro, a Reuters revelou que o bloco preparava um texto para enfraquecer parte das exigências ambientais aplicadas às companhias. A justificativa é conhecida, reduzir burocracia, aliviar custos e recuperar competitividade em um momento de economia fraca, disputa comercial e pressão política interna.
A repórter Neli Terra explica. OUÇA:
O foco da revisão recai sobre dois pilares recentes da agenda verde europeia: o primeiro é a regra de relatórios de sustentabilidade (CSRD), que ampliou a obrigação de empresas publicarem dados sobre clima, riscos, emissões e impactos. O segundo é a diretiva de “devida diligência” (CSDDD), que exige que empresas identifiquem e reduzam danos ambientais e violações de direitos humanos na própria operação e na cadeia de fornecedores.
A proposta que circulou em dezembro aponta para uma redução forte do universo de empresas alcançadas. Pelo acordo citado pela Reuters, a CSRD ficaria restrita a companhias com mais de 1.000 empregados e faturamento acima de 450 milhões de euros. Já a CSDDD passaria a atingir apenas empresas ainda maiores, com mais de 5.000 empregados e 1,5 bilhão de euros em faturamento, e com entrada em vigor projetada para 2029.
Outro ponto simbólico é a retirada da obrigação de “planos de transição climática”, que aproximava as regras corporativas das metas ambientais do bloco.
Razões para a flexibilizacão da UE
Empresas reclamam de sobrecarga regulatória, custos de compliance e risco jurídico. Os governos também pressionam por uma abordagem mais “amiga do investimento”, em um ciclo de desaceleração e competição com EUA e Ásia. A Reuters relata pressão direta de atores externos, incluindo Estados Unidos e Qatar, além de lobby corporativo, em especial por causa do efeito extraterritorial, quando regras europeias acabam puxando obrigações para fornecedores e parceiros fora da UE. Do lado político, a votação no Parlamento Europeu, também em dezembro, mostrou um bloco favorável à redução do alcance das normas, com reação dura de grupos ambientais e de direitos humanos.
O que pode mudar para fornecedores
Mesmo quando a regra mira empresas europeias, ela costuma chegar ao fornecedor por tabela. O mecanismo é simples: para reportar e cumprir diligência, a grande empresa pede dados e garantias à cadeia. Se menos empresas forem obrigadas a cumprir CSRD e CSDDD, o volume de exigências pode cair para os fornecedores menores, ao menos no curto prazo. Menos questionários, auditorias e pedidos de rastreabilidade. Mas a pressão não desaparece.
Grandes companhias continuam no escopo, e são elas que compram em escala global. Elas tendem a manter exigências internas, seja por reputação, seja por financiadores, seguros e clientes. O resultado provável é um mercado mais desigual, no qual a cobrança fica concentrada nos gigantes e se espalha por cadeias estratégicas, como alimentos, mineração, energia e manufatura.
Para os exportadores, inclusive os brasileiros, o recado é prático: a régua pode ficar menos universal, mas não fica baixa. Quem vende para grandes compradores europeus ainda deve conviver com requisitos de rastreabilidade, metas de redução de emissões e comprovação de origem.
Perspectivas futuras
O texto ainda precisa de aprovações formais, mas a direção política já ficou clara. A UE tenta manter a “marca verde” sem travar a economia. O risco é abrir uma fase de insegurança regulatória, com empresas adiando investimento em sistemas de rastreio e governos divergindo sobre aplicação.
Se a flexibilização avançar, a tendência é de transição para um modelo mais focado em empresas muito grandes e em setores de maior risco. Do lado do mercado, isso pode reduzir os custos para parte das companhias. Para quem cobra ambição climática, a mudança pode enfraquecer o efeito dominó que empurrava padrões ambientais para cadeias inteiras.
No fim, a UE segue como referência global, mesmo quando pisa no freio. Porque o mundo inteiro vende para a Europa, e quase todo mundo acaba aprendendo a linguagem regulatória de Bruxelas, queira ou não.
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