Por Alexandre Gonzaga
Símbolo icônico da paisagem urbana brasileira, o orelhão caminha para desaparecer por completo. Presente durante décadas em milhares de praças e ruas do país, o equipamento hoje é quase um objeto enigmático para as novas gerações, que já nasceram imersas no design e na lógica do telefone celular. Poucos sabem para que serviam aquelas “orelhas” coloridas e menos ainda reconhecem o aparelho em seu interior, o telefone fixo.
No início, as ligações eram feitas por meio de fichas telefônicas, adquiridas no comércio. Havia sempre a tensão de adivinhar a duração da conversa. Muitas vezes, a ligação era abruptamente interrompida pelo fim do crédito, com os segundos correndo mais rápido do que as palavras. Depois, vieram os cartões telefônicos, que amenizaram o problema, mas mantiveram a lógica do tempo contado e da comunicação limitada.
Sou protagonista de parte dessa história que impulsionou as telecomunicações no Brasil, em um período marcado por investimentos públicos massivos, especialmente nas décadas de 1980 e 1990. Foi esse esforço estrutural que pavimentou o caminho para as tecnologias atuais da telefonia móvel e da conectividade digital. À época, já se falava em fibra óptica, embora ainda não houvesse clareza sobre sua aplicação prática. No máximo, imaginava-se que substituiria os fios de cobre nos postes.
Meu primeiro emprego, fruto de concurso público, foi na Telems, Telecomunicações de Mato Grosso do Sul, no complexo administrativo da empresa, na Vila Margarida, em Campo Grande, em
1984. Atuei no setor de treinamento, responsável por encaminhar dezenas de engenheiros aos Centros de Treinamento da Telebras, em Recife e Brasília. A telefonia móvel era um sonho distante, sem contornos definidos. O cenário era outro. Havia filas intermináveis para a obtenção de uma linha telefônica residencial, cujo valor podia equivaler ao de um carro popular. Não era raro que proprietários de múltiplas linhas as alugassem como fonte de renda extra.
Mesmo em seu auge, o orelhão já enfrentava desafios. Útil para cidadãos e comunidades inteiras, o equipamento passou a ser alvo frequente de vandalismo. Em 1979, a então Telesp, empresa paulista de telecomunicações, chegou a produzir um comercial de televisão que tratava simbolicamente da “morte do orelhão”, alertando para a depredação e o uso indevido dos aparelhos. Décadas depois, a metáfora se concretiza. Hoje, o orelhão morre de fato, não mais vítima do vandalismo, mas da evolução tecnológica.
O orelhão nasceu nesse contexto de expansão e escassez. Foi criado em 1971 pela arquiteta e designer sino-brasileira Chu Ming Silveira, então integrante do Departamento de Projetos da Companhia Telefônica Brasileira, CTB. Inspirada no formato de um ovo, escolhido pela resistência e pela excelente acústica, Chu Ming desenvolveu uma estrutura em fibra de vidro capaz de proteger o usuário do ruído externo, do sol e da chuva, além de oferecer maior conforto sonoro.
Os primeiros modelos, oficialmente chamados de TUPs, Telefones de Uso Público, foram instalados em janeiro de 1972 no Rio de Janeiro e em São Paulo. Inicialmente batizados de “chuva”, nas cores azul e laranja, e “orelhinha”, em versão menor, logo ganharam o apelido popular de “orelhão”. O sucesso do design foi tamanho que o modelo passou a ser exportado para países como Angola, Colômbia, Paraguai e Peru, consolidando-se como uma das mais reconhecidas peças do design urbano brasileiro.
Em um país de dimensões continentais como o Brasil, os desafios para garantir cobertura e transmissão de informações sempre foram enormes, especialmente na fase inicial das comunicações via satélite. Vivi de perto parte dessa história ao trabalhar também em uma das estações de comunicação internacional da Embratel, localizada em Morungaba, no interior de São Paulo.
A estação, tecnicamente denominada estação terrena de satélites, foi inaugurada em 1986 e rapidamente se consolidou como um marco
estratégico para as telecomunicações brasileiras. À época, era responsável por cerca de 40% de todo o tráfego internacional de informações do país, conectando o Brasil ao restante do mundo em um período de acelerada globalização das comunicações.
O complexo de Morungaba teve papel decisivo na transmissão de eventos emblemáticos para a sociedade brasileira, como as vitórias de Ayrton Senna na Fórmula 1 e a cobertura de edições dos Jogos Olímpicos. As grandes antenas parabólicas, visíveis a quilômetros de distância, simbolizavam o esforço tecnológico necessário para superar as limitações geográficas e integrar o país às redes globais de informação.
A estação operou por aproximadamente 12 anos. Sua desativação ocorreu em decorrência do rápido avanço tecnológico, especialmente com a chegada da fibra óptica e a digitalização dos sinais, que tornaram obsoletas as grandes estruturas analógicas utilizadas até então. O que antes exigia complexos sistemas de satélites passou a ser realizado com maior eficiência, menor custo e maior capacidade por meio de cabos ópticos. Hoje, o local encontra-se vazio e abandonado, um retrato silencioso da velocidade com que a tecnologia transforma infraestruturas, encerra ciclos e redefine prioridades.
É justamente essa transição tecnológica que agora alcança, de forma definitiva, os orelhões, já esquecidos e raros nas cidades brasileiras. Em Campo Grande, o símbolo dessa despedida tem endereço quase invisível. O último orelhão ativo da capital fica a cerca de 40 quilômetros do centro, no distrito de Rochedinho. Ali, o equipamento segue em funcionamento graças ao cuidado cotidiano de uma guardiã, personagem anônima de uma história que resiste à extinção. Em Mato Grosso do Sul, restam apenas 58 orelhões ativos, números que traduzem, em escala local, o esgotamento de um modelo nacional.
A partir deste mês, começa a retirada final dos telefones públicos das ruas do país. A mudança ocorre após o encerramento das concessões de telefonia fixa, o que elimina a obrigação legal das operadoras de manter esses equipamentos em funcionamento, conforme diretrizes da Agência Nacional de Telecomunicações, Anatel. Atualmente, o Brasil ainda possui cerca de 38 mil telefones públicos espalhados pelo território nacional.
O plano regulatório prevê a remoção em larga escala dos aparelhos desativados e a manutenção temporária apenas em localidades sem cobertura de telefonia móvel, até 2028. Como contrapartida, a Anatel determinou o redirecionamento dos investimentos antes destinados à telefonia fixa para a expansão das redes de banda larga e da telefonia móvel, alinhando a política pública às novas demandas de conectividade da sociedade brasileira.
O desaparecimento dos orelhões não representa apenas o fim de um equipamento urbano, mas o encerramento de um ciclo histórico das telecomunicações no Brasil, marcado por planejamento público, engenharia pesada, inovação incremental e pelo esforço contínuo de integrar um país continental à comunicação global.
O fim dos orelhões também lembra que nenhuma tecnologia é eterna. Assim como as fichas, os cartões telefônicos, as centrais analógicas e as grandes antenas parabólicas, outras ferramentas hoje consideradas indispensáveis também terão seu momento de despedida.
A tecnologia avança também em seu papel social de ampliar a oferta de serviços de maneira mais universal e com custos mais baixos. É o caso das conversas e mensagens eletrônicas, que possibilitaram falar com qualquer pessoa no planeta.
A comunicação seguirá avançando, cada vez mais invisível e integrada ao cotidiano. E, quando isso acontecer, restarão as memórias, os vestígios urbanos e a consciência de que o progresso é feito, inevitavelmente, de começos e de finais.
Alexandre Gonzaga é jornalista e escreve sobre cultura, viagens, experiências e reflexões sobre a vida cotidiana.
Imagens: Youtube: Propagandas Históricas TELESP (Morte do Orelhão) – 1979
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