As mudanças climáticas se tornaram a principal preocupação do agronegócio brasileiro em 2026. A conclusão é da nova edição da pesquisa “Top 10 Riscos e Oportunidades no Agro”, elaborada pela EY, que ouviu líderes e executivos do setor para identificar os principais desafios que podem afetar a produção agropecuária nos próximos anos.
O resultado mostra uma mudança importante de percepção. Temas tradicionalmente associados ao ambiente de negócios, como custos de produção, crédito, tributação e questões regulatórias, continuam relevantes, mas perderam espaço para uma preocupação cada vez mais presente no campo: o clima.
Secas prolongadas, ondas de calor, chuvas intensas e mudanças no comportamento das estações passaram a impactar diretamente a produtividade agrícola em diversas regiões do país. Nos últimos anos, produtores rurais enfrentaram perdas provocadas por estiagens históricas no Sul, secas severas na Amazônia e no Centro-Oeste e episódios de chuva extrema que comprometeram lavouras, estradas e logística. Especialistas afirmam que esses eventos deixaram de ser ocorrências isoladas e passaram a fazer parte do planejamento das propriedades rurais.
Embora a tecnologia tenha avançado significativamente, a produção agropecuária continua fortemente dependente das condições climáticas. Uma alteração no regime de chuvas ou uma sequência de dias com temperaturas acima do normal pode afetar desde a germinação das sementes até a produtividade final das lavouras. O impacto também alcança a pecuária, que depende da disponibilidade de pastagens, água e conforto térmico para os animais.
A preocupação ganha relevância porque o Brasil ocupa posição estratégica no abastecimento global de alimentos. O país lidera exportações de produtos como soja, café, açúcar, carne bovina e carne de frango, além de figurar entre os maiores produtores mundiais de milho, algodão e celulose. Qualquer redução significativa da produtividade tem potencial para afetar preços, exportações e geração de renda.
A mesma pesquisa aponta que a adaptação climática também abre novas oportunidades de negócios. Ferramentas de agricultura de precisão, monitoramento por satélite, inteligência artificial, biotecnologia e sistemas avançados de irrigação estão entre as soluções mais citadas pelos executivos do setor. A tendência é que investimentos em tecnologia se tornem cada vez mais importantes para reduzir riscos e aumentar a resiliência das propriedades rurais.
Outro tema que ganhou destaque foi a gestão de riscos. Com a maior frequência de eventos climáticos extremos, cresce a demanda por seguros agrícolas, sistemas de monitoramento climático e mecanismos de proteção financeira contra perdas de safra. Especialistas afirmam que o seguro rural tende a se tornar uma ferramenta cada vez mais estratégica para produtores de todos os portes.
Estados com forte vocação agropecuária, como o Mato Grosso do Sul, acompanham essa transformação de perto. O estado se destaca na produção de soja, milho, celulose e pecuária de corte, atividades diretamente influenciadas pelas condições climáticas. Além disso, a expansão da agricultura de baixo carbono e dos sistemas integrados de produção vem ganhando espaço na região.
A pesquisa mostra que práticas sustentáveis deixaram de ser vistas apenas como diferencial de mercado. Para muitos produtores, elas passaram a representar uma questão de competitividade e sobrevivência econômica. Manejo eficiente da água, recuperação de áreas degradadas, integração lavoura-pecuária-floresta e redução das emissões de carbono estão entre as estratégias mais discutidas pelo setor.
O levantamento da EY indica que o agronegócio brasileiro entrou em uma nova fase, na qual os desafios climáticos passaram a ocupar o centro das decisões empresariais. Mais do que uma preocupação ambiental, o clima tornou-se uma variável econômica capaz de influenciar produtividade, custos, acesso a crédito e competitividade internacional.
Para um setor que responde por cerca de um quarto do Produto Interno Bruto brasileiro e por quase metade das exportações do país, adaptar-se às mudanças climáticas deixou de ser uma opção. Tornou-se uma necessidade estratégica.
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