Mulheres trabalhando em plantação no agronegócio do Mato Grosso do Sul
Agronegócio

Mulheres ganham espaço no agronegócio, mas ainda enfrentam desafios estruturais

Pesquisa mostra crescimento da participação feminina na gestão de propriedades rurais, mas acesso a crédito, assistência técnica e espaços de decisão ainda é desigual

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A participação feminina no agronegócio brasileiro continua crescendo, mas ainda encontra barreiras importantes para alcançar igualdade de oportunidades. É o que revela o estudo “Mulheres nas Cadeias de Valor do Agronegócio Brasileiro”, elaborado pela Fundação IDH no âmbito do Fundo AGRI3.

Segundo o levantamento, as mulheres administram cerca de 30 milhões de hectares, o equivalente a 8,5% dos 351 milhões de hectares ocupados pelos estabelecimentos agropecuários brasileiros. Elas estão à frente de 947 mil propriedades rurais, o que representa 19% dos 5,07 milhões de estabelecimentos existentes no país.  

A maior concentração está no Nordeste, responsável por 57% das propriedades administradas por mulheres. O perfil predominante é de pequenas propriedades familiares: 77,8% dos estabelecimentos familiares comandados por mulheres possuem até 20 hectares e, entre as propriedades maiores, 88% têm até 500 hectares.  

O estudo mostra ainda que 81% das mulheres que atuam no agro são proprietárias das terras, mas a maioria administra áreas pequenas, geralmente obtidas por herança, doação ou programas de reforma agrária. A dificuldade de acesso a propriedades maiores continua sendo uma das principais barreiras para ampliar sua participação no agronegócio comercial.  

Em relação às atividades desenvolvidas, a pecuária concentra a maior participação feminina, reunindo 50% das produtoras proprietárias, seguida pelas lavouras temporárias, como soja, milho e outras culturas anuais (32%), e pelas lavouras permanentes, como café, cacau e frutas (11%). Entre as mulheres que não são proprietárias da terra, a pecuária também lidera, com 42%, seguida das lavouras temporárias, com 39%.  

Apesar da crescente presença no campo, a representatividade institucional ainda é reduzida. Apenas 5,3% das mulheres participam de cooperativas, contra 12,8% dos homens. No total de cooperados do país, elas representam apenas 8,6%, o que limita sua influência nas decisões e no acesso a mercados, tecnologias e programas de apoio.  

Outro desafio apontado pelo estudo é o acesso à assistência técnica. Enquanto parte das produtoras busca informação em seminários (9,6%) e na internet (8,8%), 31% afirmam não receber qualquer tipo de assistência técnica, um fator que reduz as oportunidades de aumentar a produtividade e incorporar novas tecnologias.  

As desigualdades também aparecem na remuneração. Dados reunidos pelo relatório mostram que 40,1% das mulheres ocupadas no setor recebem entre um e dois salários mínimos, enquanto apenas 17,4% ganham mais de três salários mínimos. Entre os homens, esse percentual sobe para 29,8%, evidenciando uma diferença salarial persistente, mesmo com as mulheres apresentando, em média, maior escolaridade.  

O levantamento destaca ainda que 64% das mulheres do agronegócio reconhecem que ainda existe desigualdade de gênero no setor, apesar dos avanços registrados na última década.  

Para os pesquisadores, ampliar o acesso das mulheres à terra, ao crédito, à assistência técnica, às cooperativas e aos cargos de liderança não é apenas uma questão de equidade. É também uma estratégia para aumentar a produtividade, estimular a inovação e fortalecer a sustentabilidade do agronegócio brasileiro.

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