As chamadas terras raras estão entre os recursos naturais mais disputados do mundo atualmente. Apesar do nome, esses minerais não são necessariamente raros. Na verdade, muitos deles são relativamente abundantes na crosta terrestre. O problema é que quase sempre aparecem misturados a outros minerais e em baixas concentrações, tornando sua extração e seu processamento caros, complexos e ambientalmente desafiadores.
O grupo é formado por 17 elementos químicos, a maioria com nomes “diferentões”, entre eles neodímio, praseodímio, disprósio, térbio, lantânio e cério. Esses elementos são considerados insubstituíveis em diversas tecnologias modernas. Esses minerais estão presentes em ímãs de alta potência, baterias, motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, celulares, computadores, satélites, lasers, equipamentos médicos, fibras ópticas, chips, robôs e sistemas de inteligência artificial. Também são fundamentais para a indústria de defesa, sendo utilizados em caças, submarinos, radares, mísseis guiados e sistemas de comunicação militar.
A importância estratégica cresceu tanto que muitos especialistas passaram a chamar as terras raras de “o petróleo da transição energética e da economia digital”. Mas o interesse internacional se explica por outro fator: embora diversos países possuam reservas, a China domina praticamente toda a cadeia produtiva. O país responde por cerca de 70% da produção mundial de minério e por aproximadamente 90% da capacidade global de processamento e refino, etapa mais complexa e que agrega maior valor ao produto.
Essa concentração passou a preocupar Estados Unidos, União Europeia, Japão, Coreia do Sul e Austrália, que buscam reduzir a dependência da indústria chinesa. Nos últimos anos, os Estados Unidos aprovaram bilhões de dólares em incentivos para mineração, processamento e fabricação de componentes ligados às terras raras. A União Europeia lançou a Lei das Matérias-Primas Críticas (Critical Raw Materials Act), estabelecendo metas para ampliar a produção interna e diversificar fornecedores. Já países como Austrália e Canadá aceleraram projetos de mineração e beneficiamento para atender à crescente demanda mundial.
A disputa ganhou novo impulso com o avanço da inteligência artificial. A construção de data centers, robôs industriais, sistemas de automação e equipamentos de computação de alto desempenho exige grandes quantidades desses minerais, ampliando ainda mais seu valor estratégico. Nesse cenário, o Brasil aparece como um dos países com maior potencial de crescimento. Segundo o Serviço Geológico do Brasil e o United States Geological Survey, o país possui a segunda maior reserva conhecida de terras raras do mundo, atrás apenas da China, com cerca de 21 milhões de toneladas de óxidos de terras raras.
As principais ocorrências estão em Minas Gerais, Goiás, Amazonas e Bahia, além de depósitos associados a areias monazíticas no litoral brasileiro. Apesar desse enorme potencial, o Brasil ainda produz pouco quando comparado aos líderes mundiais. A maior parte dos projetos nacionais está em fase de desenvolvimento ou expansão. O principal desafio não é apenas extrair o minério, mas construir uma cadeia industrial capaz de processar, refinar e transformar esses elementos em produtos de alto valor agregado.
Essa é justamente a estratégia brasileira. O governo federal vem incluindo as terras raras entre os chamados minerais estratégicos, incentivando pesquisas geológicas, atração de investimentos e instalação de plantas industriais para reduzir a exportação de minério bruto e ampliar a produção nacional de materiais processados.
Especialistas afirmam que essa etapa é decisiva. Exportar apenas o minério gera menor retorno econômico. Já dominar o processamento e a fabricação de componentes pode criar empregos qualificados, aumentar a arrecadação e inserir o Brasil em segmentos tecnológicos de maior valor agregado. Ao mesmo tempo, os especialistas alertam para os desafios ambientais. O beneficiamento das terras raras pode gerar resíduos químicos e, em alguns depósitos, ocorre associado a elementos radioativos naturais, exigindo rígidos controles ambientais e de segurança.
A expectativa é que a demanda mundial continue crescendo nas próximas décadas. A Agência Internacional de Energia estima que a expansão dos veículos elétricos, das energias renováveis e das redes elétricas inteligentes aumentará significativamente o consumo de minerais críticos, incluindo as terras raras. O mundo vive uma nova corrida por recursos estratégicos. Se no século XX o petróleo esteve no centro das disputas geopolíticas, neste século os minerais críticos, especialmente as terras raras, tendem a desempenhar um papel cada vez mais importante na economia, na inovação tecnológica e na segurança nacional.
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