A aspirina, ou AAS, virou sinônimo popular de “afinar o sangue”. Muita gente toma por conta própria para “evitar infarto” ou “evitar AVC”. O problema é que, fora de situações bem específicas, o benefício pode ser pequeno e o risco de sangramento pode ser maior do que parece.
Aspirina não afina o sangue no sentido literal. Ela age nas plaquetas, que são células do sangue responsáveis por formar coágulos. Em doses baixas, a aspirina diminui a chance de um coágulo se formar e entupir uma artéria. Isso pode ser importante para quem já teve um evento, como infarto ou AVC, mas nem sempre faz sentido para quem nunca teve nada.
Mitos e verdades
Verdade: a aspirina pode reduzir o risco de novos eventos em pessoas com doença cardiovascular já conhecida, como quem já teve infarto, AVC isquêmico, colocou stent ou tem doença arterial comprovada. Nesses casos, ela é um remédio clássico de prevenção secundária, usada para evitar repetição.
Mito perigoso: “todo mundo acima de 40 anos deveria tomar”. Diretrizes mais recentes foram ficando mais cautelosas com o uso preventivo em pessoas sem doença cardiovascular, principalmente por causa do risco de sangramentos, incluindo sangramento no estômago e, mais raramente, no cérebro.
Quem deve pensar em usar e quem deve evitar
Para quem nunca teve infarto ou AVC, a decisão é bem mais chata do que parece. A Força Tarefa de Serviços Preventivos dos Estados Unidos, uma referência importante em prevenção, recomenda que:
–> Entre 40 e 59 anos, só vale considerar aspirina em baixa dose se a pessoa tiver risco cardiovascular alto, e mesmo assim com decisão individual, pesando risco de sangramento.
–> A partir de 60 anos, recomenda não iniciar aspirina apenas para prevenir o primeiro infarto ou o primeiro AVC.
Além disso, algumas pessoas costumam ter mais risco de sangramento e precisam de avaliação extra antes de pensar em aspirina incluindo aqueles com histórico de úlcera ou sangramento gastrointestinal, quem usa anti-inflamatórios com frequência, anticoagulantes, ou tem algumas doenças e condições que aumentam sangramento.
Principais riscos
O risco mais conhecido é sangramento. O mais comum é no trato digestivo, como gastrite e sangramento no estômago. Existe também risco de sangramento mais grave. Por isso, a FDA reforça que a aspirina diária não é “para todo mundo”, e que o uso deve ser orientado por profissional de saúde, especialmente quando a ideia é prevenção.
Medicamentos alternativos atuais
Aqui entra o ponto que mais confunde. Nem todo “afinador” é igual, e cada um serve para um tipo de risco:
1) Outros antiagregantes de plaquetas
Em alguns casos, o médico pode optar por alternativas como clopidogrel, principalmente se houver intolerância à aspirina ou em estratégias específicas após eventos e procedimentos. Diretrizes europeias citam o clopidogrel como alternativa quando a aspirina não pode ser usada na prevenção secundária.
2) Anticoagulantes
Quando o risco é outro, por exemplo fibrilação atrial, trombose venosa ou embolia, entram anticoagulantes, que agem numa parte diferente da coagulação. A escolha depende do diagnóstico, não do “medo genérico” de trombose.
3) O básico que dá mais resultado do que parece
Para prevenção, muitas vezes o que mais pesa é controle de pressão, colesterol, diabetes, parar de fumar, atividade física, sono e peso. Aspirina não substitui isso.
Se você já toma aspirina todo dia, o recado não é “pare agora”. Em vez disso, confirme o motivo. Pode estar certo, especialmente se você já teve infarto, AVC isquêmico, colocou stent, ou tem recomendação formal por risco elevado.
Mas se a aspirina entrou na sua rotina só porque “dizem que afina o sangue”, vale conversar com um médico e revisar:
- se você está em prevenção primária ou secundária,
- seu risco de sangramento,
- e se existe alternativa mais adequada para o seu caso.
Imagem Canva I.A
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