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Onça-pintada: do planeta ao Pantanal, o que está em jogo na COP15

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Por Sérgio Carvalho 

Brasil, guardião de uma espécie-chave

Quando o mundo se reúne para discutir biodiversidade, como na Conferência das Partes – COP15, promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU) e realizada em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, existe um ponto de partida que não pode ser ignorado.

O Brasil não é apenas um país biodiverso. É um dos principais centros de vida do planeta.

Segundo organismos internacionais como o World Wide Fund for Nature Brasil (WWF Brasil) e dados sistematizados pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o território brasileiro abriga a maior diversidade biológica do mundo, distribuída em biomas como Amazônia, Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica. É nesse espaço que a natureza se apresenta em escala, complexidade e interdependência.

Há, no entanto, uma camada que ultrapassa os relatórios técnicos e se revela na própria lógica da vida. A natureza não opera no acaso. Ela se organiza.

Como um sistema vivo, estabelece funções, relações e hierarquias que sustentam o equilíbrio dos ecossistemas. Em cada território do planeta, uma espécie ocupa o topo da cadeia não por imposição, mas por necessidade ecológica. É dessa organização que nasce a estabilidade.

Na África, o leão domina as savanas. No Ártico, o urso polar ocupa o topo do gelo. Nos oceanos, os tubarões regulam cadeias inteiras. Nas florestas e áreas úmidas das Américas, esse papel é exercido pela onça-pintada.

A Panthera onca, maior felino do continente, não é apenas um símbolo de força. É uma função ecológica.

Estudos reunidos pelo Instituto Onça-Pintada (IOP) e pela Onçafari classificam a espécie como predador de topo e elemento-chave para o equilíbrio ambiental. Sua presença regula populações, molda comportamentos e mantém o sistema em funcionamento.

Nesse contexto, o Brasil assume um papel silencioso e decisivo.

O país abriga cerca de metade das onças-pintadas do planeta, segundo levantamentos consolidados por essas instituições e por bases utilizadas em políticas públicas ambientais.
Não se trata apenas de um dado estatístico.

É a constatação de que, em um mundo que discute o futuro da biodiversidade, grande parte dessa resposta está dentro das fronteiras brasileiras.
Nos lugares em que a onça existe, o sistema ainda funciona.
Quando ela desaparece, o equilíbrio da natureza se altera, muitas vezes antes de ser percebido.

Mato Grosso do Sul, território de abundância e tensão

Se o Brasil é um dos centros da vida no planeta, Mato Grosso do Sul é uma de suas expressões mais sensíveis.

No encontro entre Cerrado e Pantanal, a natureza revela um fenômeno cada vez mais raro no mundo contemporâneo, a coexistência entre abundância e complexidade ecológica.

O Pantanal sul-mato-grossense abriga uma das maiores densidades de onça-pintada do planeta. Estudos de monitoramento com armadilhas fotográficas, conduzidos pela Empresa Brasileira de

Pesquisa Agropecuária Pantanal (Embrapa Pantanal) em parceria com a Onçafari, registram índices que podem alcançar cerca de sete indivíduos a cada 100 quilômetros quadrados.
Sob a ótica da ciência, esse dado revela mais do que abundância.

Indica estabilidade de sistema

Predadores de topo somente se mantêm em alta densidade quando há base alimentar suficiente, integridade de habitat e equilíbrio nas relações ecológicas. Trata-se do que a literatura científica reconhece como sistema funcional.

É nesse ponto que emerge a tensão

Relatórios técnicos do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e análises do ICMBio indicam que o Pantanal enfrenta pressões crescentes. Queimadas de grande escala, expansão de atividades produtivas e fragmentação de habitat comprometem a continuidade desse equilíbrio.

O que está em jogo não é apenas a presença da onça.
É a capacidade do sistema de continuar se organizando.

O Pantanal deixa de ser apenas paisagem e passa a ser indicador

Nesse contexto, a Conferência das Partes (COP15), promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU) e realizada em Campo Grande, atravessa o campo diplomático. Deixa de ser apenas um encontro internacional e passa a dialogar com o território, com a paisagem e com a vida que existe nela.

Serra do Amolar, onde a teoria encontra o território

No extremo oeste de Mato Grosso do Sul, em uma região de difícil acesso, a Serra do Amolar se apresenta como um dos territórios mais preservados do Pantanal.

Nesse espaço, a natureza ainda opera com menor interferência humana, permitindo a observação mais clara de seus mecanismos de equilíbrio.

O Instituto Homem Pantaneiro (IHP) conduz na região um dos mais relevantes projetos de conservação do país, protegendo aproximadamente 135 mil hectares contínuos dentro do corredor ecológico da Serra do Amolar.

Para fins de compreensão, trata-se de uma área equivalente a mais de 180 mil campos de futebol, um território contínuo onde a dinâmica ecológica ainda se mantém em funcionamento.

É nesse ambiente que ciência, território e economia passam a se conectar

Projetos estruturados de conservação, como o REDD+ Serra do Amolar, desenvolvido pelo Instituto Homem Pantaneiro (IHP), operam dentro de um mecanismo internacional de enfrentamento às mudanças climáticas. REDD+ é a sigla para Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal, uma estratégia reconhecida no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU) que estabelece valor econômico para a floresta em pé.

Na prática, o que está em jogo é a manutenção da vegetação nativa. Ao evitar o desmatamento e a degradação, o projeto impede a liberação de carbono na atmosfera. Esse carbono permanece estocado na floresta e, a partir de metodologias científicas e certificações internacionais, é convertido em créditos de carbono.

Esses créditos podem ser adquiridos por empresas e instituições que buscam compensar suas emissões. Trata-se, portanto, de um modelo em que conservar deixa de ser apenas uma obrigação ambiental e passa a integrar uma lógica econômica.

É importante compreender que o crédito de carbono não é gerado pela fauna. Ele é resultado direto da floresta preservada.

No entanto, a presença da onça-pintada nesse território revela algo fundamental. Como predador de topo, a espécie depende de uma cadeia alimentar estruturada, de disponibilidade hídrica e de integridade ambiental. Onde há onça, há sistema.

Nesse sentido, a onça-pintada não é a origem do crédito de carbono, mas é a evidência de que ele é legítimo.
Ela indica que a floresta está funcionando.

E é exatamente nesse ponto que a conservação ganha nova dimensão. O que antes era visto apenas como proteção ambiental passa a ser compreendido como ativo estratégico, conectando biodiversidade, clima e economia em um mesmo território.

Organizações como a Onçafari e o Instituto Onça-Pintada (IOP) reconhecem a espécie como indicador de equilíbrio ambiental. Onde há onça, há cadeia alimentar estruturada, disponibilidade de recursos e funcionamento do sistema.

Mais recentemente, essa lógica avança para o campo da economia da biodiversidade. A conservação passa a ser associada a mecanismos de valorização ambiental, nos quais a biodiversidade assume papel estratégico.

A natureza, que sempre operou em equilíbrio, passa também a ser reconhecida em valor.
Nesse território, a Conferência das Partes (COP15) deixa de ser conceito e se materializa na prática. Ela se manifesta na floresta preservada, na presença da fauna e na possibilidade concreta de manutenção do equilíbrio ecológico.

Do planeta ao Pantanal, estabelece-se uma conexão direta entre ciência, território e decisões globais.
No centro dessa conexão, a onça-pintada se apresenta não apenas como símbolo, mas como síntese de um sistema em funcionamento.

Sérgio Carvalho – jornalista, roteirista e analista socioambiental

Imagem gerada por I.A

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