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Saúde

Queda da patente do Ozempic abre mercado e pode reduzir preços no Brasil

Semaglutida perde exclusividade, Anvisa já analisa novos registros e consumidor deve ganhar mais opções

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A queda da patente da semaglutida, princípio ativo de medicamentos como Ozempic, Wegovy e Rybelsus, abre uma nova fase no mercado brasileiro. A exclusividade expirou em 20 de março de 2026, após decisão do STJ que rejeitou a prorrogação pedida pela detentora da patente. O efeito mais esperado é simples: mais concorrência. O efeito imediato, porém, não será tão simples assim.

O consumidor brasileiro tende a ganhar em três frentes. A primeira é a entrada de similares e, mais adiante, genéricos, desde que aprovados pela Anvisa. A segunda é a pressão competitiva sobre preços, hoje ainda muito altos. A terceira é a ampliação da oferta, num mercado que viveu escassez e forte procura nos últimos anos. A Anvisa informou há poucos dias que existem oito processos em análise para novos medicamentos com semaglutida e outros nove aguardando início de análise. 

O ponto central é o tempo. O fim da patente não coloca um remédio mais barato na prateleira no dia seguinte. A CNN Brasil informou que a expectativa do mercado é de que o primeiro similar nacional receba aval da Anvisa por volta de junho, o que empurra os efeitos comerciais mais visíveis para o segundo semestre. 

Hoje, o preço do Ozempic no Brasil ainda pesa no bolso. O valor por caneta costuma ficar na faixa de R$ 800 a R$ 1.000, dependendo da dosagem, da farmácia e dos programas de desconto. Em reportagem anterior sobre a quebra da patente, a CNN Brasil citou preços entre R$ 929 e R$ 1.063. Esse patamar ajuda a explicar por que a queda da exclusividade é vista como um divisor de águas para pacientes e varejo farmacêutico. 

O impacto para as farmácias já é enorme antes mesmo da concorrência chegar. Um levantamento citado pelo Panorama Farmacêutico mostrou que os medicamentos da classe GLP-1 ocuparam quatro posições entre os dez mais vendidos nas farmácias brasileiras em 2025. Somados, esses produtos movimentaram mais de R$ 9,8 bilhões no ano. Outro levantamento, reproduzido pelo Conselho Regional de Farmácia de Goiás, aponta que o mercado de agonistas de GLP-1 alcançou cerca de R$ 10 bilhões em 2025, o equivalente a aproximadamente 4% do varejo farmacêutico brasileiro. 

O peso desse mercado fica ainda mais claro quando comparado ao tamanho do setor. O varejo farmacêutico brasileiro movimentou aproximadamente R$ 241 bilhões em 2025, segundo levantamentos com base em dados da IQVIA. Em outras palavras, as canetas e comprimidos dessa classe já respondem por uma fatia relevante do caixa das farmácias. 

Esse avanço mudou até o ranking de vendas. Segundo o Panorama Farmacêutico, Mounjaro, Wegovy, Ozempic e Rybelsus aparecem entre os medicamentos mais vendidos do país. O dado mostra que a disputa não gira mais em torno de um único produto. Ela envolve uma corrida comercial entre marcas voltadas a diabetes e obesidade, com forte apelo também no uso para emagrecimento. 

Para o consumidor, a queda da patente tende a alterar esse jogo. O Ozempic pode perder espaço para novas versões de semaglutida com preços menores. O Wegovy, da mesma fabricante e com o mesmo princípio ativo, segue como referência para obesidade. O Rybelsus mantém a vantagem do comprimido oral. O Mounjaro, da Eli Lilly, concorre por outra via, com tirzepatida, e já ganhou mercado. O próprio Panorama Farmacêutico informou que o Ozempic perdeu participação e teve recuo de 46,87% nas vendas em 2025, enquanto os concorrentes avançaram. 

A mudança também pode acelerar investimentos locais. A Times Brasil informou que empresas como EMS e Biomm aguardam a tramitação regulatória para lançar versões nacionais. Isso pode ampliar a produção interna e reduzir a dependência de poucos fornecedores. 

O consumidor, porém, não deve esperar uma queda dramática logo de início. Em declarações à imprensa, especialistas ressaltam que alternativas ao produto original não serão automaticamente baratas. O preço final dependerá do custo do insumo, do tipo de registro aprovado, da estratégia comercial dos laboratórios e do nível real de competição nas farmácias.

Existe também um lado regulatório importante. A Anvisa esclareceu em 2025 que a semaglutida sintética não podia ser manipulada ou importada para manipulação enquanto não houvesse medicamento registrado com esse insumo. A entrada de novos registros pode mudar esse ambiente, mas dentro de regras sanitárias rígidas. Isso ajuda a conter a informalidade e reduz o risco de produtos sem controle adequado. 

A demanda segue forte. Levantamento com base em dados da IQVIA mostrou que a venda de medicamentos para emagrecimento cresceu 78,3% entre 2021 e 2025, chegando a 7.356.469 unidades. Só em 2025, a expansão foi de 39,1%. Isso indica que qualquer redução de preço pode ampliar ainda mais o público consumidor. 

No fim, o que muda para o brasileiro é o seguinte: a patente caiu, o mercado abriu, a concorrência deve aumentar, mas o alívio no preço será gradual. O Ozempic deixa de ser um produto protegido e entra numa fase mais parecida com a de outros campeões de venda após o fim da exclusividade. Para quem depende da semaglutida por indicação médica, isso pode significar acesso mais amplo. Para as farmácias, significa uma guerra comercial de bilhões. Para os consumidores, significa uma promessa concreta, mas ainda não imediata, de pagar menos.

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