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O Assunto é Cinema – Revisitando O Pagador de Promessas

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O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.

 

NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales

 

Como uma celebração do cinema mundial mirou o olhar para uma história singular de um Brasil profundo e esquecido em plena década de 1960? E ainda lhe concedeu sua glória máxima, abrindo clareiras ainda maiores para o prestígio internacional do audiovisual brasileiro. Esse filme é “O Pagador de Promessas”, lançado em 1962, cuja história merece ser radiografada.

O pequeno pedaço de terra no interior da Bahia e o burro Nicolau eram tudo que Zé do Burro possuía. Quando Nicolau adoece, Zé do Burro procura um terreiro de candomblé. Em troca da cura do animal, o homem amarra com a mãe-de-santo duas promessas: dividir suas terras com os pobres e carregar uma grande cruz de madeira até a igreja de Santa Bárbara, em Salvador, na Bahia. Nicolau é curado. Então, Zé do Burro começa a saga para cumprir as promessas. Porém, ao chegar em Salvador, o padre Olavo barra sua entrada na igreja porque as promessas tinham origem “pagã”. Zé do Burro insiste e ganha apoios da imprensa, que o transforma em símbolo da reforma agrária, e dos candoblecistas, que o convertem em líder contra a discriminação religiosa. Porém, o sertanejo só queria pagar suas promessas. Quando a situação descamba para o confronto com a polícia, ele é morto. O povo revoltado coloca o corpo de Zé do Burro na cruz e invade a igreja. Por linhas tortas, a promessa foi cumprida.

Repleto de elementos culturais brasileiros e construído sob uma narrativa com forte componente teatral, já que é baseado na peça homônima de Dias Gomes, “O Pagador de Promessas” seria somente mais um clássico da cinematografia do país com digitais do espírito contestador do Cinema Novo. Porém, o longa foi a lugares que raras produções nacionais haviam trafegado. Lugares que o colocaram no Olimpo dos prêmios mundiais do cinema. O maior deles foi a Palma de Ouro do Festival de Cannes, a mais importante condecoração internacional do cinema brasileiro até então. O responsável pela façanha foi o diretor e roteirista Anselmo Duarte. Ele realizou um trabalho magnífico na adaptação do texto original, com diálogos pungentes carregados de significados potentes. O interessante é como as mensagens se conectam com o mundo mantendo a essência sertaneja que o fundamenta. Ou seja, é relativamente seguro tanto para um brasileiro quanto para um estrangeiro compreender o desenvolvimento da história.

O filme segue a estrutura da jornada do herói, porém, com rupturas que colocam Zé do Burro em uma rica complexidade. Sua profundidade cheia de nuances sutis convive muito bem com a simplicidade narrativa e isso cativa, especialmente por uma aura quase messiânica que circunda o protagonista. Nesse aspecto, a atuação de Leonardo Villar é crucial, pois ele consegue impor comoção, ternura, resignação e coragem em proporções perfeitas. Vale destacar também Gloria Menezes, que interpreta Rosa, esposa de Zé Burro. Ela funciona como contraponto dramático, já que, diferente do marido, ela o reconecta ao mundo real do qual a obsessão pelo cumprimento das promessas o faz desviar. Como em toda jornada de herói um antagonista é necessário, Dionísio Azevedo como o padro Olavo também merece menção. Seu personagem é uma figura de autoridade enfrentada por Zé do Burro e pela população que rompe o poder institucional da igreja calçado na sacralidade. Uma metáfora vigorosa da apropriação da fé por parte de seus adeptos, quase uma revolução eclesiástica.

Tecnicamente, “O Pagador de Promessas” utiliza com maestria a fotografia, enquadramentos e movimentos de câmera para valorizar tanto a saga de Zé do Burro quanto as raízes populares da fé sertaneja. Em momentos mais introspectivos, a gramática do teatro se faz presente, acentuando a tragédia da história. Em passagens externas, as cenas de multidão são um espetáculo orgânico que transformam o enredo numa sinfonia humana galopante. É impossível não se envolver com cada passagem do filme. Nesse aspecto, um dos pontos mais altos são as interações sincréticas entre a fé católica e a religiosidade de matriz africana. As duas correntes se mesclam tão intensamente que se fundem em apenas um corpo metafísico que transcende a materialidade, sem abandonar o mundo concreto. É uma união da crença popular afrontando a oficialidade controladora de mentes e corações sertanejos do Brasil profundo. E a trilha sonora de Gabriel Migliori, somada a temas sacros e batuques, complementam o cenário com vivacidade.

“O Pagador de Promessas” não é um clássico à toa. Em suas camadas, são reveladas facetas de um país em ebulição, na conturbada busca de sua identidade, em um lugar ocultado do próprio brasileiro. A saga do Zé do Burro deu ao Brasil sua premiação mais destacável até aquele momento. Era uma validação necessária? Para projetar a história, talvez, mas mesmo se não acontecesse, jamais anularia a essência da obra. O longa mostrou a multiplicidade da fé em um país herdeiro de relações traumáticas entre o cristianismo imposto há séculos e à força pelo colonizador e o candomblé como meio espiritual de resistência da ancestralidade africana. Tudo isso sintetizado em Zé do Burro, que amarrou promessas no terreiro e cumpriu, ainda que martirizado, na igreja. A cena das pessoas o carregando morto na cruz é uma provocação mordaz porque alude a um Jesus bondoso, resoluto e tolerante, vitimado pelo poder que controla súditos com a espada autoritária do dogmatismo sob o jugo do racismo religioso. Uma bofetada muito plausível para os atuais dias. Mesmo que Anselmo Duarte seja injustamente tachado de “cineasta de um filme só”, sua obra-prima merece o lugar de louvor no panteão máximo do cinema brasileiro.

 

Nota: 1.000.

 

Confira o trailer do filme “O Pagador de Promessas”:

 

Ouça o episódio revisitando “O Pagador de Promessas”, entre outras atrações, no Spotify da Educativa MS:

 

Foto em destaque: Divulgação.

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