Colunista

O Assunto é Cinema – Analisando Mortal Kombat II

Compartilhar
Compartilhar

Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.

 

NOTA E CRÍTICA – Daniel Rockenbach

 

O Assunto é Cinema analisa “Mortal Kombat II”, filme dirigido por Simon McQuoid com roteiro de Jeremy Slater. A trama acompanha Johnny Cage, um ator especialista em artes marciais recrutado por Raiden, Deus do Trovão e guardião do reino terrestre, para combater em um torneio de artes marciais em Outworld. Se os lutadores terrenos vencerem, a Terra estará salva da invasão de Shao Kahn. Se perderem, o destino do planeta estará nas mãos dos exércitos de Outworld.

Em linhas gerais, este é basicamente o mesmo argumento da adaptação de Paul W. S. Anderson. A diferença é que, na fraquíssima reimaginação para os cinemas, lançada em 2021, os produtores forçaram um novo personagem como condutor da trama, algo que não fazia o menor sentido para os fãs da franquia e ficava fraco até mesmo para um filme de ação e fantasia por empurrar um protagonista totalmente desconectado deste mundo fantástico. Tal decisão, ainda assim, não comprometeu o desempenho do longa no streaming da HBO Max, já que o filme não poderia estrear nos cinemas por conta da pandemia da Covid-19, na época.

A ironia é que, enquanto o protagonista Cole Young interpretado por Lewis Tan tinha mais da metade do filme anterior em tempo de tela, na sequência ele mal é apresentado e logo é descartado em pouco mais de três minutos somados em cena. Isso deixa claro que o estúdio percebeu o equívoco que arruinou a experiência dos fãs no longa anterior, tanto que na abertura do novo filme, o espectador mais atento logo percebe a ausência do “II” quando o nome do longa aparece. Não é algo que poupe o produtor James Wan ou o diretor Simon McQuoid do constrangimento do longa anterior, mas ameniza, justamente por abraçar o material original.

Adotar Johnny Cage como o condutor da narrativa não apenas funciona como deixa claro que o novo filme abraça os clichês da franquia, sem medo de se assumir cafona ou tenha vergonha de abraçar suas muitas referências. Em vários momentos Karl Urban interpreta um Johnny Cage canastrão, que ironiza o sério Raiden de Tadanobu Asano chamando ele de Gandalf ou Dumbledore, isso quando não o elogia pelo cosplay de “Aventureiros do Bairro Proibido”. Esse tipo de aceno à cultura pop que forjou o jogo a ser esse balaio de referências é algo muito bem-vindo.

Quem sustenta o arco dramático da trama é a Kitana de Adeline Rudolph, a personagem com maior desenvolvimento em um filme cujo grande atrativo está na ação e violência desenfreadas e não na coerência ou construção dos personagens. O roteiro franco de Jeremy Slater confere a Kitana um mínimo de desenvolvimento emocional com uma trama simples, mas efetiva, de vingança pela perda do pai, o rei Jerrod, morto por Shao Kahn. Escrever um roteiro melhor que o do longa anterior pode não parecer uma tarefa difícil, mas consertar os erros e fazer com que tudo que se passou pouco importasse na sequência é um feito considerável.

Esteticamente, o novo “Mortal Kombat” finalmente entrega os cenários tradicionais dos jogos, tanto em Outworld quanto em Netherrealm ou em Edenia. A ponte sobre o rio ácido, o portal dimensional, a sala do trono de Shao Kahn, todos os cenários combinam bem com os jogos mais recentes e ainda trazem um ou outro aceno aos clássicos da franquia. O mesmo pode ser dito dos figurinos de Cappi Ireland que recriam com competência os visuais mais recentes dos personagens. A paleta de cores mais neutras do filme anterior ganha tons mais expressivos no novo filme. Ainda que em alguns momentos o filme pareça artificial, os efeitos não comprometem.

Um ponto fraco que persiste entre os filmes é a trilha sonora protocolar de Benjamin Wallfisch. As composições se pretendem épicas e falham em entregar o óbvio quando apenas nos créditos o compositor usa de vez o icônico tema “Techno Syndrome”. Em um filme que não tem vergonha de se assumir kitch, não usar um dos temas eletrônicos mais divertidos da década de noventa é um pecado. O compositor poderia tentar algo como o que Brian Tyler fez em “Super Mario Bros” ao inserir os temas clássicos de Koji Kondo no meio de suas próprias composições, algo que os fãs receberiam bem se ele adaptasse os temas de Dan Forden para os jogos originais.

O elenco pouco expressivo do filme anterior evoluiu em vários aspectos, principalmente nos protagonistas da trama, Johnny Cage e Kitana. Kano de Josh Lawson é o único  ator do filme anterior que se destaca ao retornar dos mortos na sequência. O ator australiano que havia sido o único aspecto positivo do filme anterior volta com seu sotaque característico para dar vida ao mercenário que agora está do lado dos heróis, algo que condiz com a natureza traiçoeira do personagem já que ele pode virar a casaca em uma inevitável terceira parte. A dinâmica entre Kano e Johnny Cage funciona bem, saindo um pouco do antagonismo que se vê nos jogos.

“Mortal Kombat II” pode não se tornar o filme de maior sucesso da temporada do verão norte-americano, mas tem tudo para agradar os fãs da franquia desapontados com o filme anterior. O grande feito da sequência está em corrigir os muitos problemas da reimaginação de 2021 e ainda entregar um longa que respeita o material original. Detalhes como a participação especial de um dos criadores da franquia, Ed Boon, em uma cena com Johnny Cage fazem toda a diferença em um projeto cuja maior pretensão é divertir e agradar os fãs. Tem tudo para virar um bom exemplo no futuro de como uma franquia pode se salvar com uma sequência bem planejada.

“Mortal Kombat II” está em cartaz nos cinemas.

 

Nota 7.

 

Confira o trailer de “Mortal Kombat II”:

 

Ouça o episódio analisando “Mortal Kombat II”, entre outras atrações, direto do Spotify da Educativa MS:

 

Foto: Divulgação.

Compartilhar

Deixe um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados
Colunista

O Assunto é Cinema – Revisitando Eu, Christiane F.

O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles...

Colunista

O Assunto é Cinema – Analisando o jogo High on Life 2

O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles...

Colunista

O Assunto é Cinema – Revisitando 007 Contra a Chantagem Atômica

O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles...

Colunista

O Assunto é Cinema – Analisando Passageiro do Mal

O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles...