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O Assunto é Cinema – Revisitando Passagem para a Índia

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Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.

 

NOTA E CRÍTICA – Daniel Rockenbach

O Assunto é Cinema revisita “Passagem para a Índia”, filme escrito e dirigido por David Lean, lançado em 1984. A trama acompanha a jovem Adela Quested viajando com a Sra. Moore para a Índia, na década de 1920. Quando as duas chegam ao país para encontrar o noivo de Adela, o filho da Sra. Moore, o encanto com o exótico local faz com que ambas queiram conhecer mais do mundo e da cultura hindus. É a partir daí que elas conhecem Aziz, um médico hindu, e Fielding, um inglês que dirige o colégio para os locais. Eles assumem a tarefa de apresentar a elas o país.

Adela se interessa por conhecer as misteriosas cavernas de Marabar, o que faz com que Aziz organize com os nativos uma expedição, a contragosto do promotor inglês da colônia, noivo de Adela. O diretor Fielding acaba se atrasando para a viagem e isso faz com que Aziz tenha de levar sozinho as duas até as montanhas. Na visita, Adela se perde em uma das cavernas enquanto Aziz parte desesperado em sua procura. O desencontro faz com que Adela tenha uma crise de pânico e isso faz com que os ingleses acusem Aziz de tentar violentar a jovem.

Baseado no romance homônimo de E. M. Forster e na peça de Santha Rama Rau, de 1960, “Passagem para a Índia” acabou sendo o último longa da carreira do lendário cineasta inglês, David Lean. A fidelidade ao texto original reflete o respeito do diretor ao adaptar um dos maiores romances ingleses do século passado, obra que discutiu a fundo o colonialismo britânico na Índia. O tom mais exótico da peça de Santha Rama Rau ajudou a compor melhor o panorama cultural e estético da adaptação, completando aquele que seria um dos roteiros mais ambíguos de Lean.

A grande virada da narrativa acontece no julgamento, quando Aziz percebe de vez que os ingleses nunca quiseram ver o povo hindu como semelhante. Ainda que sua admiração pela Sra. Moore se mantenha firme, a decepção com Adela e os administradores da colônia é maior, algo que desencadeará num rancor que mudará sua visão dos ingleses e o fará partir para o lado livre do país. Quando Adela admite na corte que tudo não passou de um delírio, ela é desacreditada e abandonada pelos britânicos, outro grande tema da trama que deixa a sugestão de que os sentimentos de Adela para com Aziz eram mais profundos, a raiz da ambiguidade do roteiro.

A representação da Índia inglesa, pobre e decadente, exalta o quanto os britânicos queriam manter a população local na ignorância. O contraste entre a colônia e a região livre é um dos pontos altos do épico que destaca sempre que possível as cores e a diversidade do povo brâmane em comparação ao cinza constante e monótono do lado inglês. O julgamento de Aziz é o momento onde o choque entre as visões acontece e o resultado, com Aziz livre para abandonar de vez os costumes ingleses, escancara o racismo e a arrogância da coroa ao achar que só por ser europeia, administraria melhor o país e as pessoas.

Fielding é o único a circular com naturalidade pelos dois mundos, algo que a sutileza na escalação de James Fox traz em sua aparência já que ele lembra bastante o próprio autor do romance, E. M. Forster. O indiano Victor Banerjee entrega um Aziz franco, que vai do protagonista ingênuo ao calejado conforme a trama se desenvolve. O papel mais ambíguo do filme coube à australiana Judy Davis que entregou uma Adela cujos sentimentos sempre parecem estar contidos por uma barreira frágil, prestes a romper. A sutileza da atuação de Davis sugere mais que explica, principalmente no desfecho da trama. Será que suas dúvidas para com os sentimentos pelo noivo insosso não se intensificaram por conta da beleza exótica e a disposição constante e admiração de Aziz? É algo que fica em aberto, tanto pelo roteiro como pela direção de Lean e a atuação de Judy Davis.

A trilha de Maurice Jarre chegou a ser alvo de críticas pelo tom romântico na época do lançamento do filme, mas basta considerar a sugestão de que Adela se sente atraída por Aziz para que as composições ganhem outra dimensão. As notas que embalam a valsa do tema principal ganham interpretações sutis em cenas como a em que Adela contempla solitária as estátuas nuas de divindades hindus se amando sem pudor, algo que ela definitivamente não sentia pelo noivo. O moralismo com que os ingleses tratam as mulheres acaba questionado pela Sra. Moore da brilhante Peggy Ashcroft que em vários momentos confronta a postura do filho e a presença inglesa na região. Não é por acaso que todos gostam dela, ingleses e hindus.

A adaptação de David Lean rendeu questionamentos como a escalação de Alec Guinness como o professor Godbole, personagem que traz o elemento da espiritualidade hindu para a trama. Por que escalar um inglês e maquiá-lo para o papel em um filme com tantos talentos hindus em cena? É algo que jamais saberemos, já que Lean insistiu em contar com o veterano ator para o papel em mais um trabalho. Ainda assim, “Passagem para a Índia” acaba sendo uma grande representação dos conflitos colonialistas pelo mundo, algo que David Lean sempre abordou com extrema habilidade em seus épicos. A ambiguidade do desfecho torna tudo ainda mais sutil e interessante, acrescentando uma bem-vinda crítica ao patriarcado britânico.

“Passagem para a Índia” está disponível no serviço de streaming Amazon Prime Video.

Nota: 11.

Confira o trailer do filme “Passagem para a Índia” lançado em 1984:

 

Ouça o episódio revisitando “Passagem para a Índia”, entre outras atrações, direto do Spotify da Educativa MS:

 

Foto: Divulgação.

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