O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS.
NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales
Às vezes, elaborar um bom terror não é tarefa tão complexa. A simplicidade pode ser o caminho para produzir medo, com contexto e esperteza. Um fator que pode ajudar é recorrer ao manancial das crendices populares, como, por exemplo, os santos católicos. É o caso de “Passageiro do Mal”, em cartaz nos cinemas. Ele conta a história do casal Tyler e Maddie, que resolve abandonar a rotina e se entregar a uma vida estradeira a bordo de uma motorhome van. Tudo ia bem até o casal ajudar uma pessoa que sofreu um acidente à noite, sem saber que estava atraindo uma entidade maligna que habita as rodovias. Então, a viagem se torna um pesadelo mortal para Tyler e Maddie, e todos os vanzeiros com quem interagem. A direção é de André Øvredal, com roteiro de Zachary Donohue e T.W. Burgess.
“Passageiro do Mal” parte da excitante premissa de mesclar religiosidade com terror demoníaco, apesar de o início não ser muito inspirado. O longa-metragem abre com a oração de São Cristóvão, que poderia ser desenvolvida de modo mais criativo, em vez daa reprodução escrita da reza. Nada que comprometa e funciona para indicar a linha-mestra do roteiro. A partir daí, o filme segue a toada usual das obras de terror, quase um clichê narrativo: cria-se uma ambientação envolvente por meio de uma história coloquial, no caso, a do casal apaixonado de noivos se aventurando em uma nova vida. Sem levantar suspeitas claras sobre quando o terror vai emergir, a obra deposita sobre a relutância de Maddie com os rumos do casal alguns breves indícios de suspense, como se ela pressentisse o perigo iminente. Uma boa tática de familiarização que ajuda a abraçar a trama.
A ambientação inicial não se alonga muito e aos poucos o filme exibe seu propósito, impulsionado pelo prólogo do arco de Maddie e Tyler. Uma dupla de amigos dirige pela estrada à noite e sofre a abordagem apavorante de um ser diabólico que culmina em uma morte horrenda. Então, quando o casal ganha a estrada à noite, as duas situações se conectam, ligando a ignição da jornada principal. Até esse ponto, roteiro e direção caminham sobre ótimas trilhas, tudo bem amarrado e empolgante. Mesmo porque a sacada nem é tanto o horror corporal, apesar de presente, mas sim a atmosfera tensa que se desenha aos poucos. Ou seja, “Passageiro do Mal” acerta nas sugestões psicológicas. Para isso, as atuações de Lou Llobel e Jacob Scipio são fundamentais. Não que tenham brilhado, até porque seus papeis não exigem tanto, mas para de insinuar a iminência de algo aterrorizante, deram para o gasto.
O grande “personagem” do filme é a estrada à noite. Por isso, a fotografia investe em ótimas tomadas noturnas em movimento e em planos-sequência alucinantes. É como se a rodovia se vestisse de mal ao acolher a entidade demoníaca que atormenta Tyler e Maddie. Não é uma criatura tão assustadora e talvez por isso, não tenha tanto tempo de tela, mas funciona como espectro, surgindo de súbito em momentos sabiamente posicionados. A entidade cria um fascínio mórbido que poderia ser bem melhor aproveitado se os momentos finais não desperdiçassem a premissa da ideia religiosa de São Cristóvão. Um roteiro mais caprichoso levaria a um resultado bem melhor. A ousadia metafísica cedeu lugar à segurança monótona dos clichês.
“Passageiro do Mal” não é um filme ruim. Ele diverte ao transformar em terror e suspense um componente naturalmente temerário que é a direção nas estradas em horário noturno. Apesar dos problemas que evoluem conforme o andamento da trama, “Passageiro do Mal” tem bons momentos de sustos leves. Porém, parece que foi feito para reforçar boas e más tendências de um gênero ainda carente de soluções como o terror. A simplicidade do roteiro prometia uma aventura mais inventiva, mas ele se perdeu no lugar comum. As sugestões psicológicas a partir da religiosidade poderiam provocar mais assombro. Sem falar que deixa a desconfortável mensagem sobre o risco de trocar a falsa segurança da vida trivial com emprego monótono sob as rédeas do sistema pela aventura subversiva de uma existência menos sujeita aos ditames do capitalismo. Nada de “Nomadland” (2020). Nada de desafiar o padrão social, sob pena de o Passageiro fazer mais vítimas na solidão da estrada no meio da madrugada.
“Passageiro do Mal” está em cartaz nos cinemas.
Nota: 6,0
Confira o trailer de “Passageiro do Mal”:
Ouça o episódio analisando “Passageiro do Mal”, entre outras atrações, no Spotify da Educativa MS:
Foto em destaque: Divulgação.
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