Capa do filme Território do Crime, com foco na temática de crime organizado.
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O Assunto é Cinema – Analisa o filme “TERRITÓRIO DO CRIME”

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O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS. Analisa o filme Território do Crime.

Por Clayton Salles

NOTA – 4.0

O crime organizado é um problema crônico do Brasil. Uma chaga que percorre a história recente do país, ceifando vidas e enriquecendo os piores tipos de bandidos. São várias facetas desse câncer e uma das mais podres são as milícias, organizações criminosas formadas por policiais e militares corruptos protegidos pelas estruturas do Estado. Em diversos lugares, as milícias rivalizam com narcotraficantes, muitas vezes, utilizando delegados pilantras, políticos safados e aliados em meios de comunicação que os vendem como implacáveis combatentes do crime. Uma falácia que, infelizmente, convence muita gente. A lembrança imediata desse contexto é o Rio de Janeiro e o filme “Tropa de Elite 2” (2010) de José Padilha, mas a cidade há muito tempo deixou de ser a única portadora desse problema. A arquitetura miliciana se alastrou pelo Brasil, alcançando cidades do Norte, por exemplo. Essa é a base do filme “Território do Crime”, longa de ação e drama policial disponível na HBO Max. A direção é de Gustavo Bonafé.

O longa-metragem conta a história de Andrea, policial civil que perdeu o parceiro Sodré em uma operação em uma área de periferia. Procurando respostas para a morte do colega, ela arrisca a vida investigando o conflito entre dois grupos rivais: a milícia Homens de Bem, liderada por Gilvan, apresentador de um programa sensacionalista de TV, e a quadrilha de traficantes liderada por Dino, irmão de Gilvan. Ela conta com a ajuda do ambíguo policial Elvis para desvendar a morte do parceiro e reunir provas para prender os bandidos.

Abordar a questão da milícia é sempre oportuno e o cinema cada vez mais deveria olhar esse espaço criminoso que se espalha pelo Brasil. Logo, uma produção nacional que coloca o dedo nessa ferida é louvável e esse é um ponto positivo de “Território do Crime”. O argumento é válido por expor a dinâmica atual das guerras por domínio territorial que colocam em confronto traficantes e milicianos, que, no fim das contas, também são traficantes. Porém, o mérito do filme para por aí. O roteiro é enfadonho, com diálogos carregados de lugares-comuns, importando medíocres chavões dos filmes de ação americanos. A estrutura narrativa é previsível e frustrante, como se cada passo dos personagens fosse uma coleção de obviedades tediosa.

A direção de “Território do Crime” até se esforça para entregar uma obra com toques de tensão policial convincente, mas não consegue. É um empenho honesto que esbarra em limitações do repertório cinematográfico da direção. As cenas de tiroteios são eficientes até certo ponto, mas a lentidão artificial dos movimentos subtrai muito do seu potencial. Há contexto nelas, o que é o mínimo, mas o desenvolvimento é muito problemático. A própria dinâmica da irmandade entre Gilvan e Dino carece de melhor abordagem, especialmente pelo desfecho em forma de um constrangedor dramalhão familiar. Tecnicamente, o filme faz o básico para o gasto, mesmo que o roteiro não ajude. Os enquadramentos e movimentos de câmera são convencionais o suficiente para não se atabalhoarem e permitirem que, pelo menos, a trama seja acompanhada sem tantas lacunas. A trilha sonora de Daniel Simitan é usada com parcimônia, ilustrando as cenas e construindo uma atmosfera adequada.

O elenco de “Território do Crime” consegue entregar atuações ao menos apropriadas ao que o filme propõe. O destaque é a Thaís Lago e sua Andreia como ilha de honestidade no oceano policial corrupto e criminoso. Ela desenvolve bem sua solidão ingrata de autoridade íntegra, que tenta mexer no vespeiro da guerra pelo poder na região. Apesar do roteiro, sua personagem convence na medida do possível. Já Eucir de Souza e Jackson Antunes entregam os irmãos Gilvan e Dino com entrosamento, mesmo que, novamente, roteiro e direção não aproveitem melhor seus talentos. Os coadjuvantes seguram as pontas e, ao menos nesse pormenor, a direção consegue um desempenho satisfatório e conduz as tomadas de ação com bom senso.

“Território do Crime” poderia ser mais um importante filme nacional sobre a problemática complexa do avanço das milícias por todas as regiões do Brasil. Em vez disso, transforma essa proposta em uma produção piegas que culmina em um folhetim insosso. Se há algum mérito, ele se concentra no argumento oportuno que transfere e a dinâmica do crime organizado do país para o norte, para onde se alastrou, absorvendo os contextos locais. Milícias fora do eixo Rio-São Paulo são uma realidade que se soma aos cartéis já existentes, deixando a população brasileira, especialmente das margens urbanas, em constante estado de tensão. Pelo menos, o filme deixou sementes para futuras obras de ação sobre esse contexto. Milícias são um fenômeno criminoso real, com tentáculos nos alicerces do Estado, nas entranhas da política e em setores da imprensa, como já havia apontado “Tropa de Elite 2”, filme muito superior. Um roteiro mais decente e uma direção mais aprimorada e essa temática ganhará a obra que necessita.

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