Colunista

O Assunto é Cinema – Revisitando Delicatessen

Compartilhar
Compartilhar

O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h, no Spotify do Assunto é Cinema.

NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales

Comédia é como camaleão. Tão cheio de possibilidades que se adequa às mais inusitadas situações, mesmo aquelas inspiradas em cenários possíveis. Porque, se o problema da escassez de alimentos no mundo já era vislumbrável no começo dos anos 1990, imagina hoje. Então, coube aos roteiristas de “Delicatessen” transformar essa inquietação crônica em uma obra de humor sombrio, com doses elevadas de surrealismo e o sarcasmo nas alturas. Eles acabaram concebendo um dos filmes mais singulares do cinema. Lançado em 1991, “Delicatessen” conta a história de Clapet, dono de um açougue localizado em uma França pós-apocalíptica, onde falta comida e o pouco que ainda resta é disputado de forma selvagem. Então, para se alimentar, o açougueiro encontra uma solução tenebrosa: atrair pessoas com oferta de emprego para trabalhar no lugar disfarçado de delicatessen, matá-las e vendê-las. Mas nesse cenário sórdido, há espaço para uma estranha história de amor.

Produção francesa, “Delicatessen” tem um roteiro construído a base de muita ousadia, sem perder o prumo na narrativa. Isso se deve a uma direção consistente, um belo trabalho coletivo de Jean-Pierre Jeunet, Marco Caro e Gilles Adrien, o trio de roteiristas que conduz o filme com maestria. A originalidade da história se apresenta desde a premissa de utilizar com habilidade e controle, desde recursos do humor pastelão até elementos de cinema noir e do expressionismo alemão. Embora os sobressaltos surreais causem espanto, é praticamente impossível se perder no emaranhado de situações peculiares, o que reforça o quanto a trama foi bem desenvolvida. Os textos são inspirados o suficiente para adornar as atuações do elenco com doses de ironia que fazem pensar se o filme deve ser ou não levado a sério. Essa ambiguidade é uma das características mais memoráveis de “Delicatessen”. Ele diverte pelo tétrico e conduz a espasmos de reflexão sobre a distopia que o contextualiza.

Em termos técnicos, “Delicatessen” consegue uma proeza extraordinária que serve a seu propósito jocoso e satírico. É um filme besuntado de camadas carameladas em toda sua extensão, dando uma sensação de desprendimento do mundo real, embelezando a tosqueira de sua trama de fundo e conferindo uma assinatura primorosa a sua realização. Para completar essa estrutura, o longa abusa de enquadramentos tortuosos casados com movimentos comedidos o suficiente para valorizar os personagens e situações. Ora a câmera abre, encurralando o estabelecimento, dando um ar de peculiaridade onírica, ora fecha os ângulos para focar em detalhes que evocam um falso drama. São alternâncias eficazes que ajudam a ditar o ritmo do filme. É uma produção que aguça sentidos, como se possível sentir cheiro e sabores variados que permeiam o absurdo predominante. A trilha sonora de Carlos D’Alessio aposta em temas arejados para criar o contraste com a loucura soturna do filme.

O burlesco é a marca das atuações em “Delicatessen”. Mesmo em cenas de alívio dramático, atores e atrizes ressaltam, em algum nível, suas veias caricatas, possivelmente forjadas em sólida teatralidade. Aliás, é um filme bastante teatral, tanto nos cenários e marcações, quanto nas performances de seu ótimo elenco. O destaque é para um impagável Jean-Claude Dreyfus com seu Clapet nojento e hilário, além de Dominique Pinon com seu Louison em um misto de herói inesperado, romântico ingênuo e boboca adorável. Em um filme onde as expressões faciais são cruciais para o desenrolar da trama, o elenco entrega intensidade a todo instante. E quando a loja delicatessen se transforma em microcosmo de uma sociedade distópica com a descoberta dos Trogloditas Vegetarianos que viviam no subterrâneo, a explosão de talentos desse plantel de atores se acentua ainda mais. Um espetáculo superlativo.

Salvo por alguns deslizes na montagem, obnubiladas pelo caos benfazejo que norteia o roteiro, “Delicatessen” é um filme caprichado, com roteiro que parte da ideia distópica para desenvolver uma trivialidade que atende muito bem ao propósito de uma produção pautada pelo absurdo. Visualmente fantástico, ele lança gramáticas da comédia pastelão, terror clássico e ação burlesca para compor uma obra que, se fosse para ser levada a sério, faria refletir sobre os deslimites do ser humano em situações de absoluto estado de natureza, como diria Thomas Hobbes. Mas como é uma comédia francesa da melhor safra, com inigualáveis mesclas entre sutilezas e escrachos, é um filme para entreter, mesmo que a fique mente antenada em um não impossível futuro assustador.

Nota 9.

“Delicatessen” está disponível no serviço de streaming Oldflix.

Confira o trailer de “Delicatessen”:

 

Ouça o episódio revisitando “Delicatessen”, entre outras atrações, no Spotify do Assunto é Cinema:

 

Foto em destaque: Divulgação.

Compartilhar

Deixe um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados
Colunista

O Assunto é Cinema – Analisando Supergirl

O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton...

Pôster do filme A Encruzilhada com Robert Johnson e violão na encruzilhada.
Colunista

O Assunto é Cinema – Analisa o filme “A ENCRUZILHADA”

O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles...

Carro capotado após acidente com três passageiros idosos.
Colunista

Três séculos sobre rodas

Por Alexandre Gonzaga Há histórias que simplesmente se recusam a ser esquecidas....

Capa do filme Território do Crime, com foco na temática de crime organizado.
Colunista

O Assunto é Cinema – Analisa o filme “TERRITÓRIO DO CRIME”

O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles...