Saúde

Novo medicamento oral reduz os surtos de esclerose múltipla em estudos avançados

Tratamento experimental também apresentou resultados promissores na redução de lesões cerebrais e no controle da progressão da doença

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Um medicamento experimental administrado por via oral conseguiu reduzir em 55% a frequência anual de surtos de esclerose múltipla, segundo resultados de estudos clínicos avançados divulgados pela farmacêutica suíça Roche. Os dados, apresentados em 21 de outubro durante uma conferência científica em Toronto, no Canadá, indicam uma nova possibilidade de tratamento para uma doença neurológica crônica que pode comprometer progressivamente os movimentos, a visão, a sensibilidade e outras funções do organismo.

O medicamento, chamado fenebrutinibe, foi avaliado em dois estudos de fase 3, etapa avançada dos testes clínicos realizados antes da aprovação de novos tratamentos. Na análise conjunta, os pesquisadores compararam seus resultados com os da teriflunomida, medicamento já utilizado no controle da esclerose múltipla recorrente.

Após aproximadamente dois anos de acompanhamento, a taxa anualizada de surtos foi 55% menor entre os pacientes que receberam fenebrutinibe. Os surtos são episódios de atividade inflamatória que podem provocar sintomas novos ou agravar manifestações já existentes, como fraqueza muscular, alterações visuais, formigamentos e dificuldades para caminhar.

Outro resultado considerado importante foi observado em 75% dos participantes tratados com o medicamento: eles permaneceram sem evidências de atividade da doença durante o período avaliado. Isso significa que não apresentaram surtos, novas alterações detectáveis pela ressonância magnética ou agravamento confirmado da incapacidade física.

Os pesquisadores também identificaram uma redução de até 30% no volume de determinadas lesões cerebrais que se expandem lentamente e estão associadas à inflamação crônica. Além disso, o tratamento reduziu em 23% a perda anual de volume cerebral e em 16% um indicador combinado de progressão confirmada da incapacidade.

Esses resultados chamam a atenção porque a esclerose múltipla não se manifesta apenas por surtos. Mesmo quando os episódios agudos estão controlados, alguns pacientes continuam apresentando alterações neurológicas progressivas, relacionadas a processos inflamatórios persistentes e danos ao tecido cerebral.

A doença ocorre quando o sistema imunológico ataca estruturas do sistema nervoso central, especialmente a mielina, camada que protege as fibras nervosas e facilita a transmissão dos impulsos elétricos. Esse processo pode provocar lesões no cérebro e na medula espinhal, comprometendo a comunicação entre diferentes regiões do organismo.

Entre os sintomas mais comuns estão fadiga intensa, alterações de equilíbrio, perda de força, dificuldades de coordenação, problemas visuais e alterações de sensibilidade. A evolução varia bastante de uma pessoa para outra, mas, em alguns casos, a doença pode provocar limitações permanentes.

O fenebrutinibe atua de maneira diferente de vários tratamentos tradicionais. Ele bloqueia uma enzima chamada tirosina quinase de Bruton, conhecida pela sigla BTK, envolvida na ativação de determinadas células do sistema imunológico.

A proposta é controlar tanto os processos inflamatórios responsáveis pelos surtos quanto mecanismos associados à inflamação persistente no cérebro. Por ser uma molécula capaz de alcançar o sistema nervoso central, o medicamento também está sendo investigado em pacientes com esclerose múltipla primariamente progressiva, forma da doença caracterizada pelo agravamento gradual dos sintomas desde o início, sem necessariamente apresentar surtos definidos.

A administração por via oral é outra característica relevante. Embora já existam medicamentos orais para esclerose múltipla, algumas terapias de alta eficácia exigem infusões ou aplicações injetáveis. Uma nova opção em comprimidos poderá facilitar a rotina de determinados pacientes, dependendo de sua eficácia, segurança e indicação.

Apesar dos resultados promissores, a redução dos surtos e das alterações cerebrais não significa cura da esclerose múltipla. Os estudos mostram maior controle da atividade da doença em comparação com os tratamentos utilizados como referência, mas ainda é necessário acompanhar os efeitos em períodos mais longos.

A segurança também é um ponto essencial. Como o medicamento interfere no funcionamento do sistema imunológico, seus possíveis efeitos adversos precisam ser avaliados cuidadosamente. Os estudos identificaram alterações em exames do fígado, o que reforça a importância do monitoramento durante o tratamento.

O fenebrutinibe ainda não está aprovado para uso clínico. Em setembro, a agência reguladora dos Estados Unidos, FDA, aceitou o pedido de registro apresentado pela Roche e concedeu prioridade à análise. A decisão sobre sua autorização dependerá da avaliação conjunta dos dados de eficácia e segurança.

Para os pacientes, a perspectiva mais importante é a possibilidade de controlar a doença por mais tempo, reduzindo surtos e retardando alterações neurológicas que podem comprometer a autonomia e a qualidade de vida.

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