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O Assunto é Cinema – Revisitando A Profecia

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O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h, no Spotify do Assunto é Cinema.

NOTA E CRÍTICA – Daniel Rockenbach

O Assunto é Cinema revisita “A Profecia”, filme dirigido por Richard Donner. A trama acompanha o diplomata norte-americano Robert Thorn, um homem que está prestes a ser pai, mas logo descobre que seu filho nasceu morto. Antes mesmo de contar o ocorrido para a esposa, Thorn recebe a proposta de uma estranha para trocar seu filho na maternidade por outra criança que havia nascido faz pouco e seria mandada para adoção. Depois de aceitar a troca, Thorn tenta viver uma vida normal com a esposa e a criança, sem sequer imaginar sua origem.

O que começa com uma tragédia familiar vai aos poucos se tornando um pesadelo envolvendo religião, poder e uma profecia apocalíptica em torno do filho do anticristo. Escrito por David Seltzer, o roteiro vinha na esteira de sucessos como “O Bebê de Rosemary” (1968) e “O Exorcista” (1973). Não é mera coincidência que o roteiro escrito por Seltzer tenha virado um romance com a mesma qualidade dos clássicos “O Bebê de Rosemary” de Ira Levin e “O Exorcista” de William Peter Blatty, haja vista a qualidade literária do horror proposto pelo roteiro de Seltzer.

A obsessão pelo número da besta, o folclórico 666 é algo que permeia toda a produção, desde o roteiro ao marketing em torno do longa. Damien, a criança, é na verdade nascida de um chacal na sexta hora do sexto dia do sexto mês e isso o torna destinado a ser o anticristo. A produção surfa na onda do terror religioso e na paranoia da época para criar um dos filmes mais assustadores da década justamente pela sugestão de que o demônio se manifestaria como uma criança angelical e não uma besta ou um ser possuído, mantendo uma aura de dúvida e sugestão em torno da criança e dos acontecimentos ao seu redor. Robert Thorn só começa a questionar a criança no momento em que ele não tem mais nada a perder, ou seja, tarde demais.

A presença de Gregory Peck como o embaixador Robert Thorn carrega todo um peso para o longa justamente por se ancorar na fama do ator por interpretar personagens íntegros como o protagonista do clássico “O Sol É para Todos” (1962) e outros tantos longas protagonizados por ele. Sua atuação retrata um homem dividido o tempo todo entre a razão e a emoção, entre acreditar nas evidências claras ao seu redor e a recusa de que uma simples criança poderia causar todos aqueles desastres apenas por existir. Lee Remick interpreta a esposa Katherine Thorn cuja ilusão em torno da criança se desfaz tarde demais, ainda que ela saiba que algo está errado.

O pequeno Damien, interpretado por Harvey Stephens, consegue provocar o medo apenas com o olhar expressivo, principalmente no desfecho apoteótico do longa. Outro destaque fica com Billie Whitelaw como a misteriosa senhora Baylock, cuja presença incômoda aos poucos provoca um desconforto quase insuportável para o protagonista que começa a desconfiar dos alertas dos personagens ao seu redor, apenas para ver eles morrendo de forma sinistra antes que ele próprio tome uma atitude, mesmo que seja tarde demais.

A direção precisa de Richard Donner vai montando a tensão e o terror em torno de Damien aos poucos com uma fotografia competente de Gilbert Taylor que explora o desconforto ao seu redor trabalhando imagens religiosas com uma angulação que sugere o tempo todo algo profano, seja nas igrejas que causam desconforto a Damien ou na frieza dos espaços vitorianos em que a família Thorn frequenta. Outro elemento fundamental na composição da atmosfera do longa está na trilha de Jerry Goldsmith que rendeu ao compositor um Oscar de melhor trilha original. Sua composição “Ave Satani”, passa a impressão de um hino profano, escrito há séculos.

Outro ponto a se destacar são as histórias de bastidores do filme que passou por uma série de acidentes e coincidências que deram ao longa a fama de produção amaldiçoada. Do avião que transportava a equipe e foi atingido por raios ao atentado no hotel onde o diretor estava hospedado, vários eventos sinistros ao redor da produção colaboraram para construir o mito de que o longa era amaldiçoado e isso fortaleceu a estratégia de divulgação do longa, algo que a Fox aproveitou ao máximo, tanto que lançou o filme em 6 de junho de 1976.

O poeta francês Charles Baudelaire dizia que “o maior truque do Diabo foi convencer o mundo de que ele não existe” e essa frase é a máxima que inspirou “A Profecia” a ser um dos melhores filmes de terror de todos os tempos. Isso é mérito do roteiro afiado de David Seltzer, da direção precisa de Richard Donner e da trilha naturalmente sinistra de Jerry Goldsmith. O longa segue funcionando até hoje justamente pela forma com que a produção trabalha com a paranoia e a sugestão da presença do anticristo como uma criança inocente, sugerindo inclusive que o mal vence no final, algo que nos faz pensar se Damien não está, de fato, vivo por aí.

“A Profecia” está disponível no serviço de streaming Disney+.

Nota: 11.

Confira o trailer de “A Profecia”:

 

Foto em destaque: Divulgação.

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