O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h, no Spotify do Assunto é Cinema.
NOTA E CRÍTICA – Daniel Rockenbach
O Assunto é Cinema analisa “Street Fighter”, filme dirigido por Kitao Sakurai. A trama acompanha Ryu e Ken, dois lutadores que se afastaram depois do primeiro torneio mundial em 1987: Ryu optou pelo ostracismo depois de vencer o campeonato, Ken abraçou a fama e virou uma estrela pop das artes marciais. Anos mais tarde, em 1993, a misteriosa Chun Li reúne um grupo de lutadores para um novo torneio, organizado pelo ditador Bison, trazendo a dupla de volta à ação.
O filme adapta a série de jogos da desenvolvedora japonesa Capcom, um sucesso comercial que começou com um jogo um tanto quanto esquecido, em 1987, mas que se tornou uma febre mundial com a sequência, em 1991. A adaptação situa a trama em 1987 no anime que abre o longa para depois pular para 1993, ano em que “Super Street Fighter 2”, a versão definitiva do jogo, foi lançada. As datas têm um papel importante na construção do filme que se assume como um produto da década de noventa, abraçando referências pop como músicas da época e a estética da MTV.
O primeiro sinal de que a trama escrita por T. J. Fixman e o diretor Kitao Sakurai não pretende se levar a sério é o uso da música “What’s Up?” do 4 Non Blondes. Ryu escuta a canção em 1987 em seu walkman, mas a música só foi lançada em 1993. O que poderia ser entendido como um deslize dos roteiristas é na verdade um indicativo de que o filme pretende abordar mais a memória afetiva dos fãs do que sustentar qualquer tipo de coerência histórica e isso é algo que acaba funcionando muito bem no meio de toda a galhofa que o longa abraça em seus 120 minutos.
As roupas extravagantes dos lutadores estão presentes. Os golpes especiais mais exagerados estão presentes, até mesmo as magias. O carro da clássica fase bônus do jogo é destruído por Ken em um clipe na MTV, combinando estética e memória de uma forma bastante interessante em prol de um fanservice tão escancarado que não há como pensar que nada no filme não tenha sido planejado com os fãs da época em mente. Até a infame exposição das lutadoras é resgatada com o destaque nas coxas da Chun Li ou no maiô justinho de Cammy.
A sexualização que na época era vista como algo natural para o público masculino poderia ser um problema no novo filme que brinca com isso colocando as lutadoras humilhando os marmanjos que as enxergam como objetos. Não que o filme se preocupe em passar qualquer tipo de mensagem edificante, mas o que poderia ser um problema vira mais uma piada quando a trama subverte a sequência infame do banho da Chun Li no anime de 1994 em que ela luta contra Vega com apenas uma toalha depois de um longo banho para repetir a cena com E. Honda lutando contra Ryu numa sauna, ambos usando apenas toalhas que obviamente caem durante a luta, apenas para provocar mais risos, trabalhando com humor elementos que envelheceram mal ao longo dos anos em projetos anteriores e que seguem presente nos jogos mais recentes.
Até mesmo a infame adaptação cinematográfica de 1994, um fracasso que virou uma pérola trash ao longo dos anos, tem sua vez. O infame diálogo entre Bison e Chun Li onde Raul Julia falava de como sua revolução eliminou opositores como os pais da jovem e isso marcou a vida da personagem enquanto para ele era apenas uma terça-feira é repetido quase na íntegra por um afetado David Dastmalchian. Ele é o único ator que parece orientado a levar a sério seu papel a ponto de deixar seu personagem ainda mais caricato que o roteiro descreve o vilão.
Enquanto Dastmalchian emprega com competência toda sua canastrice a Bison, os demais parecem entender que atuam mais como cosplayers de seus personagens, algo que em nada deprecia o filme e reforça ainda mais o aspecto nonsense da experiência que ainda acena para o público brasileiro com o exótico Blanka de Jason Momoa. A Chun Li de Callina Liung, Ken de Noah Centineo ou o Ryu de Andrew Koji representam bem os protagonistas. O generoso elenco de apoio ainda conta com um alucinado Eric André como o apresentador Don Sauvage, uma espécie de condutor da ação quando o torneio propriamente dito começa.
O final em aberto poderia ser um problema, mas mesmo a deixa para uma sequência é coerente com os tantos finais dos jogos que prometem uma sequência a cada novo lançamento da franquia. Só o segundo jogo teve pelo menos cinco versões diferentes, sem deixar de lembrar derivados como a série “Street Fighter Alpha” e outros tantos. As tramas dos jogos são ainda mais rocambolescas e isso se reflete nas tentativas anteriores de adaptar a franquia para as telas com versões frustrantes por levar tudo a sério demais, salvo exceções como o confuso anime “Street Fighter Victory” que só fez sucesso no Brasil por conta das muitas reprises na TV aberta.
“Street Fighter” é um filme baseado em um jogo de luta que não tem nenhuma conexão com a realidade. Não é um produto cultural que pretende transmitir qualquer tipo de mensagem, é um jogo que atualmente é mais um esporte eletrônico que uma narrativa ficcional, haja visto a dimensão que as competições tomaram. O erro das tentativas anteriores estava em justamente levar tudo a sério demais em um gênero que não abre tanto espaço para a criatividade narrativa. Não é como o caso de “Resident Evil”, outra franquia de sucesso da Capcom, cujas inspirações nos filmes de zumbis permitem uma narrativa mais crítica ao contemporâneo como fez o filme de Zach Cregger recentemente. “Street Fighter” é diversão, pura e simples e isso é algo que o novo filme reflete, sem medo de abraçar a ideia de se tornar uma pérola trash com um orçamento generoso. Os fãs tem tudo para curtir mas, quem esperava um filme sério, vai se decepcionar.
“Street Fighter” está em cartaz nos cinemas.
Nota: 8.
Confira o trailer de “Street Fighter”:
Foto em destaque: Divulgação.
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