O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h, no Spotify do Assunto é Cinema.
NOTA E CRÍTICA – Daniel Rockenbach
O Assunto é Cinema revisita “Howard, o Pato”, filme dirigido por Willard Huyck, com produção de George Lucas. A trama acompanha Howard, um pato como outro qualquer em um planeta onde patos falantes vivem em uma sociedade muito parecida com a nossa. Depois de chegar em casa exausto de um dia de trabalho, Howard senta em sua poltrona para apreciar a “Playduck” do mês quando, de repente, um raio de energia o puxa por um canal que o levará de seu planeta para a Terra, onde ele conhecerá os humanos e seus costumes.
“Howard, o Pato” adapta um quadrinho pouco conhecido da Marvel, com histórias do personagem criado por Steve Gerber e Val Mayerik. A proposta era nada mais que tirar onda com o universo Marvel, seus heróis e todo o gênero de super-heróis. Howard propositalmente lembrava o Pato Donald como quem queria fazer piada com tudo que tivesse relação ao mainstream, fruto de uma geração de quadrinistas que não conseguiam mais repetir os clichês de heróis em meio a uma realidade tão cruel e caótica como a do Vietnã ou outros tantos horrores da década de setenta. Nas páginas das HQs, as tramas eram repletas de metalinguagem e tiradas que ironizavam personagens, posicionamentos políticos e até mesmo a contracultura.
Já a década de oitenta marcou toda uma geração por conta de suas cores, seus excessos estéticos e suas tiradas, na maioria das vezes infames. A grande piada com a adaptação de “Howard, o Pato” da Lucasfilm está na mera sugestão do relacionamento entre o protagonista e uma humana, como se isso fosse algo possível. Já na abertura do filme, quando notamos que o mundo de Howard é equivalente ao nosso, com um “Indiana Pato”, uma “Playduck” e coisas do tipo, logo percebemos onde essas equivalências vão nos conduzir e isso envelheceu muito mal neste filme. Lea Thompson era uma das tantas musas da década e nem mesmo todo seu carisma salva o filme do roteiro sofrível de Willard Huyck e Gloria Katz. Os diálogos constrangedores, as explicações, tudo isso resulta num dos filmes mais fracos da década.
O filme tem lá seu charme com os efeitos extremamente bem conduzidos pela Industrial Light & Magic de George Lucas, principalmente se considerarmos o boneco animatronic que dá vida a Howard, uma figura bastante expressiva e que transmite bem as emoções do personagem. Outro ponto positivo é a presença de um jovem Tim Robbins como um atrapalhado cientista que vai auxiliar os protagonistas em sua jornada, mas quem de certa forma rouba a cena mesmo é o insano Jeffrey Jones, ator que o público brasileiro vai lembrar bem como o inspetor da escola de “Curtindo a Vida Adoidado”, longa lançado no mesmo ano. Seu personagem vai de cientista bem intencionado a vilão numa versão extremamente caricata, mérito do ator que parecia estar sem a menor preocupação em parecer ridículo.
O clichê do alienígena que conhece a humanidade pelo rock’n roll, fast food e pelo cinema hollywoodiano já se manifestava em filmes anteriores e séries da época como “Alf, o ETeimoso” (1986), mas aqui é levada a enésima potência ao representar o romance entre Howard e a cantora Beverly de Lea Thompson. Isso não é de todo ruim se considerarmos o filme pela visão do “tão ruim que é bom”, algo que faz com que o filme ganhe uma sobrevida, se considerarmos que é justamente por ser tão cafona e bizarro que diverte. Na época, nem a crítica ou o público entenderam o filme dessa forma e isso resultou num fracasso que comprometeu a carreira dos envolvidos e ainda quase apagou a reputação ousada dos quadrinhos de Steve Gerber, algo que a própria Marvel levaria um bom tempo para recuperar.
“Howard, o Pato” está disponível no serviço de streaming Oldflix.
Nota: 6.
Confira o trailer de “Howard, o Pato”:
Ouça o episódio revisitando “Howard, o Pato”, entre outras atrações, no Spotify do Assunto é Cinema:
Foto em destaque: Divulgação.
Deixe um comentário