O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h, no Spotify do Assunto é Cinema.
NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales
Aqui e nos EUA, o clima político por vezes tenso acirra os ânimos a níveis que podem beirar o absurdo. No Brasil, haverá o segundo turno para Presidente da República. Nos EUA, em novembro, eleições legislativas de meio de mandato. Períodos eleitorais costumam render caminhos para tramas de suspense e ação, como atestam várias obras cinematográficas, boas e ruins. Então, aproveitar essa atmosfera foi a ideia do filme “Sobrevivência”, que vem chamando a atenção no catálogo da Netflix. Ele conta a história de Mark Kimbal, candidato a prefeito de Los Angeles que leva uma vida aparentemente perfeita, com casa de alto padrão e uma bela esposa. A vida dessa família é abalada pelo rapto do filho deixado com a babá de origem latina. Então, Mark luta duas batalhas: salvar o filho e manter a imagem intacta em plena campanha eleitoral, mesmo com o sequestrador subindo o tom das ameaças. A direção é de Ben Affleck, que também assina o roteiro ao lado de Billy Ray e Connor McIntyre.
A premissa de “Sobrevivência” é promissora, mesmo que thrillers políticos costumem gravitar em torno dos mesmos clichês narrativos. Mas funcionam, especialmente se a direção escolhe o caminho mais simples e objetivo. O próprio Ben Affleck se envolveu como em produções nessa temática, como “Intrigas de Estado” (2009), que, com problemas aqui e ali, evolui com alguma desenvoltura. Desse modo, era esperado que seu novo trabalho seja resultado de um acúmulo de exitosas experiências como ator, roteirista e diretor, como no premiado “Argo” (2012). Porém, em “Sobrevivência”, o potencial se perde graças a um roteiro irregular e uma direção que tenta consertar os problemas com excesso de preciosismo. Por mais que a ideia de inserir camadas de um casamento em crise que o protagonista evita expor ao público seja interessante, ela é mal desenvolvida no filme. A história se descola da tensão, chegando ao ponto de proporcionar uma insuportavelmente longa e frustrante D.R.
Pelo menos a construção cênica e imagética de “Sobrevivência” deixa boas impressões, na verdade, aprofundando ainda mais o abismo entre intenção e realização. Os enquadramentos até se atrevem a tentar uma obliquidade que denota o ambiente instável que se esconde no esforço de Mark em manter a estampa. Como o espaço predominante é sua casa abastada, ele é tratado com um misto de requinte do “virtuoso” homem americano de sucesso e local obscurecido pelo pavor da criança da família sob cativeiro de criminosos. Porém, o roteiro estraga esse cenário e o transforma em um locus folhetinesco que neutraliza qualquer apreensão que poderia causar. Ao menos, elementos como fotografia, movimentos, edição e a meticulosa trilha sonora de Harry Gregson-Williams dignificam o trabalho da equipe com um conceito sombrio que traz de volta a lembrança de que se trata de uma obra de suspense.
Não é a primeira vez que Ben Affleck dirige um filme que protagoniza, como já foi mencionado. Normalmente, o ator se sai bem, mas em “Sobrevivência”, sua performance é prejudicada pela estrutura narrativa alquebrada e excessivamente centralizada em uma postura falsamente heroica. O longa orbita Ben Affleck, algo até aceitável, mas quando há potencial para outras camadas mais sutis, como a relação política com a comunidade latina de Los Angeles, ele se rende o chavão estereotipado típico de muitas produções americanas. No entanto, o que incomoda também é o papel de Kerry Washington como Abigail, a melancólica esposa de Mark. Chega a ser a um acinte desperdiçar o talento dessa atriz tarimbada em produções políticas, como a razoável série “Scandal” (2012-2018), mas o filme consegue essa façanha insólita ao transformá-la na principal rota dos desvios imprestáveis da trama.
Enfim, “Sobrevivência” é um filme mediano que poderia oferecer muito mais do que apresenta em termos de enredo político, mesmo que entremeado por um contexto de crise conjugal. Talvez uma das piores experiências de Ben Affleck como diretor, roteirista e ator principal, isso não o descredencia como bom cineasta de trabalhos memoráveis, inclusive no terreno do suspense político. O problema é que não se sabe se “Sobrevivência” tenta ser político disfarçado de dramático ou se ele se propõe dramático com pitadas de política. Como a ideia parece ser tangenciar a questão da imagem no meio político em época de campanha eleitoral, o longa decepciona ao concluir com um lugar-comum pretensamente complexo, mas que, no fim das contas, é apenas confuso.
Nota 5.
“Sobrevivência” está disponível no serviço de streaming Netflix.
Confira o trailer de “Sobrevivência”:
Ouça o episódio analisando o filme “Sobrevivência”, entre outras atrações, no Spotify do Assunto é Cinema:
Foto em destaque: Divulgação.
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