Análise do filme Escola de Rock com Jack Black no papel principal.
Cinema

Assunto é Cinema: analisa o filme “ESCOLA DE ROCK”

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O Assunto é Cinema é um podcast produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach. O programa fica disponível todas as quintas, às 20h (horário de MS), no Spotify da Educativa MS. Analisa o filme: ESCOLA DE ROCK.

Por Clayton Salles

ESCOLA DE ROCK

NOTA – 9.0

Uma lembrança da associação entre rock e colégio é a cena do filme “Pink Floyd – The Wall” (1982). A canção “Another Brick in the Wall II” é uma crítica contundente à educação conservadora, castradora e ineficiente que predomina hoje, responsável por transformar crianças em futuros tijolos no muro que mantém privilégios da elite.

O roteirista Mike White provavelmente pensou nessa passagem do longa de Alan Parker, e uniu rock, escola e transgressão ao conservadorismo educacional. Foi a fórmula perfeita para uma comédia sensacional. Lançado em 2003, “Escola de Rock” conta a história de Dewey Finn, guitarrista demitido da banda No Vacancy por ser extravagante demais.

Desempregado, ele mora de favor na casa do amigo, o professor Ned Schneebly e sua esposa. Um dia, a tradicional escola Horace Green liga para o professor e lhe oferece um trabalho como substituto, mas quem atende é Dewey. E o que esse maluco faz? Se passa por Ned e aceita o emprego. Chegando na escola, ele descobre que os alunos têm aulas de música clássica e são muito talentosos. Então, Dewey, fingindo ser Ned, resolve ensiná-los a tocar rock com o objetivo de vencer uma batalha de bandas, mas até esse dia, muita confusão acontece. A direção é de Richard Linklater.

Com nítidas referências ao clássico “Sociedade dos Poetas Mortos”, além do já citado “Pink Floyd – The Wall”, o roteiro de Mike White é muito inteligente e explora com destreza a crítica ao sistema educacional travestindo-a de comédia. Ele consegue trafegar no campo do humor adolescente sem parecer imbecil ou intelectualizado demais, fornecendo diálogos hilários e citações jocosas. Graças a uma ótima estrutura narrativa, a direção de Richard Linklater pôde construir um filme fluente, na toada das boas comédias e na levada deliciosa do rock’n’roll.

Outro grande mérito da direção é o trabalho com as crianças que, no fim das contas, são a maior atração do longa. Meninos e meninas com talento musical e cênico indiscutível, coube ao roteiro municiar e à direção guiar essa turma maneira pelas etapas bem delimitadas da história. Apesar dessa claridade na divisão narrativa, o filme não é estanque e sim, bastante dinâmico, equilíbrio que permite rir, se encantar, se divertir, sem que se perca o fio da meada do enredo. O desfecho é maravilhoso, com a derrota na batalha, mas vitória moral da banda Escola de Rock. Ela não ganhou o cheque de vencedora do concurso, mas ganhou o povo.

Tecnicamente, “Escola de Rock” aposta em cenários levemente escurecidos, uma remetência à cultura do rock. Contrastes meio sombrios são combinados com a textura leve da história, resultando em uma excelente maneira de entreter sem abandonar o universo estético do rock. A alma do longa é rock do início ao fim.

Movimentos e enquadramentos, até certo ponto convencionais, são utilizados com sabedoria, deixando que a história transcorra com a força que o roteiro lhe deu. Agora, é claro que o grande destaque técnico é a trilha sonora. Para além de clássicos do rock colocados como fundo para situações engraçadas, os temas e canções originais de Craig Edren conseguem preencher ainda mais o espaço do rock, consolidando-o como o grande protagonista do filme.

Quanto às atuações, o destaque, como mencionado, são as então crianças muito carismáticas e talentosas. Elas não compõem apenas um elemento exótico para o brilho do personagem principal, mas sim, peças orgânicas que movimentam a narrativa com graça, alegria e muita energia juvenil. Porém, é óbvio que seria um crime não mencionar o sempre empolgante Jack Black, com seu Dewey Finn cínico, ousado e apaixonado, atributos de um bom roqueiro das antigas. Apesar de algumas afetações que quase estouram o limite do ridículo, seu protagonista é uma usina de risadas e devoção emocionante ao rock’n’roll. Há outras figuras que também colaboram, como Joan Cusack no papel de Rosalie Mullins, sisuda diretora da escola Horace Green, e do próprio roteirista Mike White que deu vida ao tímido professor Ned Schneebly. São complementos perfeitos ao espírito de toda a obra.

“Escola de Rock” é mais uma comédia que merece ser contemplada com carinho. O roteiro é criativo e a direção conduz a história com dinamismo e inteligência. Um pouco da ruptura com o conservadorismo da Horace Green perde força nos créditos finais, em que a banda Escola de Rock se torna um projeto de extensão da própria instituição conservadora. Uma conciliação nada revolucionária. Mas isso não tira o brilho dessa comédia musical que entrega entretenimento da melhor qualidade, encantamento com crianças excepcionais e paixão devotada pelo rock’n’roll. Diferente de “Pink Floyd – The Wall”, que chega a ser tétrica na sua crítica ao conservadorismo educacional, “Escola de Rock” satiriza com leveza a educação ultrapassada que ainda insiste em formar nossos garotos e garotas. E o rock é um vislumbre de libertação dessa estrutura presa no passado.

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