Viajar de carro pode provocar náusea, tontura, suor frio e mal-estar em algumas pessoas. Mas há um detalhe que vem chamando a atenção de pesquisadores: esses sintomas podem ser mais intensos durante trajetos em veículos elétricos, especialmente para quem viaja como passageiro.
A explicação está relacionada à maneira como o cérebro interpreta os movimentos do corpo. Para manter o equilíbrio, ele combina informações recebidas pelos olhos, pelo ouvido interno e pelos músculos. Quando esses sinais não correspondem ao movimento esperado, pode surgir a chamada cinetose, nome médico do enjoo de movimento.
Nos carros elétricos, algumas características da condução podem intensificar esse conflito sensorial. Uma delas é a resposta praticamente imediata do motor ao acelerador. Diferentemente dos veículos convencionais, que apresentam ruídos, vibrações e mudanças de marcha, os elétricos conseguem acelerar de forma rápida e silenciosa, oferecendo menos pistas para que o passageiro antecipe o movimento.
Outro fator é a frenagem regenerativa, tecnologia que recupera parte da energia durante a desaceleração e a utiliza para recarregar a bateria. Em muitos modelos, basta aliviar a pressão sobre o acelerador para que o carro comece a reduzir a velocidade, mesmo sem o motorista pisar no freio.
Embora seja uma solução eficiente do ponto de vista energético, esse comportamento pode surpreender o organismo. O corpo percebe a desaceleração, mas o cérebro nem sempre consegue antecipá-la com precisão. Quando acelerações e frenagens se repetem, o desconforto pode aumentar.
Um estudo publicado em 2025 na revista científica International Journal of Human–Computer Interaction investigou esse efeito em 16 passageiros suscetíveis à cinetose. Os pesquisadores observaram que níveis mais elevados de frenagem regenerativa provocaram sintomas mais intensos. Também descobriram que sinais sonoros capazes de antecipar os movimentos ajudaram a reduzir o enjoo.
Outra pesquisa, publicada na revista Frontiers in Psychology, avaliou passageiros de veículos elétricos em diferentes situações de trânsito. Os resultados mostraram que curvas em sequência, acelerações e paradas repentinas podem contribuir para o mal-estar, com maior intensidade em determinados percursos sinuosos.
O problema tende a ser mais frequente entre passageiros do que entre motoristas. Isso acontece porque quem dirige sabe quando vai acelerar, frear ou fazer uma curva. Essa antecipação ajuda o cérebro a preparar o corpo para os movimentos. Já quem está no banco de trás tem menos controle sobre o trajeto e, muitas vezes, menor visibilidade da estrada.
Ler mensagens, assistir a vídeos ou utilizar o celular pode agravar a situação. Enquanto os olhos permanecem concentrados em uma tela aparentemente parada, o ouvido interno registra os movimentos do veículo, aumentando o conflito entre as informações sensoriais.
O silêncio dos motores elétricos também pode contribuir. Nos automóveis a combustão, o aumento do ruído do motor e as trocas de marcha funcionam como sinais que ajudam o cérebro a prever mudanças de velocidade. A ausência dessas referências pode dificultar a adaptação de algumas pessoas.
Isso não significa que todos os carros elétricos provoquem mais enjoo ou que todos os passageiros sejam afetados. A intensidade dos sintomas depende da sensibilidade individual, do estilo de direção, das configurações do veículo e das condições da estrada. Além disso, os estudos disponíveis ainda envolvem grupos relativamente pequenos de participantes.
A boa notícia é que existem maneiras de reduzir o desconforto. Uma condução mais suave, com acelerações e desacelerações progressivas, pode fazer diferença. Em modelos que permitem ajustar a intensidade da frenagem regenerativa, utilizar uma configuração menos agressiva também pode ajudar.
Para os passageiros, olhar para a estrada ou para o horizonte, evitar a leitura e o uso prolongado do celular, manter o ambiente ventilado e, quando possível, ocupar o banco dianteiro são medidas que podem aliviar os sintomas.
A indústria automobilística também investiga soluções tecnológicas. Entre elas estão sinais sonoros que antecipam mudanças de velocidade, ajustes automáticos na aceleração e sistemas de informação visual que ajudam o cérebro a reconhecer o movimento do veículo.
Com a expansão da mobilidade elétrica e dos sistemas de direção automatizada, o conforto dos passageiros ganha importância crescente. Afinal, quanto mais tempo as pessoas passam olhando para telas ou realizando outras atividades durante as viagens, maior pode ser a exposição a situações que favorecem a cinetose. O desafio não está apenas em tornar os carros mais silenciosos, eficientes e rápidos, mas em garantir que o cérebro humano consiga acompanhar seus movimentos sem transformar uma viagem em uma experiência desagradável.
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