O Brasil é referência mundial na reciclagem de latas de alumínio, com taxa de recuperação próxima de 97,3% em 2024, maior do que a de muitos países desenvolvidos. Por outro lado, o país recicla apenas 4% de todo o lixo que produz, incluindo plástico, papel, vidro e outros materiais. A grande diferença entre latinhas e outros resíduos expõe um problema estrutural no manejo de lixo no país.
Para enfrentar isso, em outubro do ano passado o governo federal publicou um decreto (nº 12.688/2025) que estabelece metas de reciclagem para plásticos e outros materiais e regras para empresas assumirem responsabilidade pelo ciclo completo de suas embalagens, incluindo a implantação de pontos de coleta e sistemas de logística reversa.
“A expressão ‘jogar fora’ não existe em um mundo com limites finitos”, afirma especialista em economia circular. Todo lixo descartado: plástico, papel, restos de comida, vai parar em algum lugar. Geralmente aterros, rios, praias, oceanos ou corpos humanos. Ignorar isso não faz o problema desaparecer.
Latinhas lideram, plástico fica para trás
O Brasil mantém taxas de reciclagem de alumínio entre as mais altas do mundo, perto de 98% nos últimos anos. A indústria do alumínio e cooperativas de catadores são pilares desse resultado, coletando e reinserindo latas no ciclo industrial quase de forma contínua.
Esse êxito contrasta com o desempenho de outros materiais. Segundo dados recentes, o país recicla aproximadamente 4% dos resíduos sólidos urbanos, um percentual muito baixo em comparação com reciclagem de alumínio ou com países de desenvolvimento similar. Apenas cerca de 6,4% dos municípios brasileiros têm programas oficiais de reciclagem estruturados.
Apesar de capazes de ser reciclados, grande parte das embalagens plásticas acaba em aterros ou incineradores. Uma análise mostrou reciclagem de plástico em torno de 20,6% em 2023, segundo estimativas da indústria do plástico, baixo para o volume produzido.
Decreto impõe metas e logística reversa
O Decreto nº 12.688/2025 introduziu metas obrigatórias para recuperação e uso de conteúdo reciclado nas embalagens plásticas. Para 2026, operadores de plástico devem recuperar, no mínimo, 32% das embalagens colocadas no mercado, conforme regras escalonadas até 2040, quando a meta sobe para 50%. Empresas podem adotar sistemas individuais ou coletivos de logística reversa, incluindo centrais de triagem, pontos de entrega voluntários e unidades de processamento.
Esse sistema emprega um modelo de responsabilidade estendida do produtor, prevendo também metas de conteúdo reciclado mínimo nos produtos. A ideia é transferir parte da responsabilidade pela reciclagem às empresas que lucram com as embalagens, incentivando projetos que estimulem a cadeia de reciclagem.
Catadores movimentam a reciclagem no país
No Brasil, cerca de 800 mil catadores de materiais recicláveis desempenham papel essencial na cadeia de reciclagem. Eles coletam, separam e vendem materiais recicláveis como plástico, papel e vidro, muitas vezes informais ou em condições precárias de trabalho. Dados de entidades do setor apontam que esses trabalhadores respondem por mais de 90% dos materiais reciclados no país.
A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), lei que organiza a gestão de resíduos no Brasil desde 2010, prevê inclusão social desses catadores e incentiva políticas públicas para formalização e participação em sistemas de coleta e reciclagem. A legislação também é base para os sistemas de logística reversa exigidos pelo novo decreto.
Desafios e o senso comum
Especialistas apontam que a falta de infraestrutura municipal completa e a baixa adesão da população à coleta seletiva limitam o avanço da reciclagem. Mais de 70% dos brasileiros não separam resíduos recicláveis em casa, o que dificulta todo o processo de reaproveitamento.
Outro desafio está no custo da resina reciclada. Embora projetos de grandes empresas, como Unilever, Coca-Cola, Boticário e Natura, busquem incorporar mais material reciclado e apoiar coleta e reutilização de embalagens, o custo da resina reciclada muitas vezes supera o plástico virgem, criando barreiras econômicas para ampliar seu uso industrial.
A construção da economia circular
O novo decreto e as políticas de incentivo fiscal à reciclagem, como regras de créditos de logística reversa, tentam criar uma economia circular, em que produtos e materiais retornem ao ciclo produtivo em vez de virar lixo. Sistemas de créditos permitem às empresas comprovar que reciclou ou destinou de forma adequada o volume correspondente às suas embalagens.
Para muitos analistas, aumentar a reciclagem brasileira não depende apenas de leis. Também exige educação pública eficaz, investimento em infraestrutura e parcerias público-privadas que fortaleçam cooperativas e formalizem a cadeia de reciclagem. Bulgaria, Chile e outros países mostram que reciclagem alta exige coordenação entre sociedade, mercado e governo.
No fim, descartar lixo pensando em “fora” ignora a realidade física. Tudo que é produzido e descartado permanece no ambiente de alguma forma. Melhorar a reciclagem é uma forma de proteger recursos naturais, reduzir poluição e criar renda, especialmente para comunidades vulneráveis.
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