Pesquisadores da Universidade de Exeter, no Reino Unido, desenvolveram as primeiras traças-da-cera (Galleria mellonella) geneticamente modificadas do mundo. A descoberta promete acelerar estudos sobre resistência antimicrobiana (RAM) e reduzir o uso de ratos e camundongos em pesquisas de infecções.
Essas traças-da-cera são larvas de uma espécie de mariposa pequena que já servem como modelo alternativo em biologia de infecções. Elas suportam temperaturas próximas ao corpo humano (37 °C) e sua resposta a bactérias ou fungos imita vários aspectos da biologia de mamíferos. Isso torna as larvas um modelo útil em experimentos iniciais de infecção.
Até agora, a falta de ferramentas genéticas impedia uso mais avançado desse organismo em pesquisa. O novo trabalho, publicado na revista Nature Lab Animal, adapta tecnologias genéticas de edição e transgenia originalmente desenvolvidas para outras espécies, permitindo inserir, remover ou modificar genes nas traças-da-cera pela primeira vez.
Traças que “acendem” e revelam infecção
Os cientistas produziram linhas de traças-da-cera com genes que produzem fluorescência controlada. Essas larvas podem funcionar como sensores vivos, acendendo luz quando infectadas ou quando respondem a antibióticos. Esse tipo de sinal visual ajuda os pesquisadores a monitorar infecções em tempo real, sem esperar por sinais clínicos tardios.
Segundo o professor James Wakefield, da Universidade de Exeter, essa tecnologia abre caminho para “moth sensors” que permitem observar respostas imunológicas e testar novos fármacos com rapidez e precisão. Ele explicou que larvas transgênicas oferecem uma janela viva para processos biológicos complexos.
O uso dessas traças geneticamente modificadas pode reduzir substancialmente a dependência de roedores, ainda muito usados em testes de biologia de infecção. No Reino Unido, por exemplo, cerca de 100 000 camundongos são utilizados anualmente nessa área de pesquisa. Se apenas 10% desses estudos migrassem para modelos com traças, mais de 10 000 roedores poderiam ser poupados por ano.
Especialistas destacam que essa abordagem também é mais barata e ética, e pode acelerar a identificação de novos antibióticos e estratégias contra microrganismos resistentes. A resistência antimicrobiana é considerada um dos maiores desafios da saúde global, deixando certos tratamentos cada vez menos eficazes conforme bactérias e fungos se adaptam a medicamentos existentes.
A equipe de Exeter publicou abertamente todos os métodos desenvolvidos, por meio do Galleria Mellonella Research Centre, apoiando mais de 20 grupos de pesquisa ao redor do mundo com materiais e treinamento para adotar esse modelo em estudos.
A traça da cera, apesar de conhecida por sua associação com colmeias de abelhas, tem ganhado espaço como organismo modelo em estudos biomédicos por sua robustez e custo de manutenção baixos em laboratório. A possibilidade de edição genética expande enormemente sua utilidade científica.
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