Um estudo publicado na revista Geophysical Research Letters aponta um efeito ambiental inesperado de substâncias criadas para proteger a camada de ozônio. Pesquisadores concluem que os substitutos dos antigos clorofluorocarbonos (CFCs) estão contribuindo para uma forma de “chuva química invisível” em todo o planeta, depositando um ácido altamente persistente na atmosfera que retorna ao solo e à água por meio da precipitação.
A pesquisa foi liderada por cientistas da Universidade de Lancaster e publicada em fevereiro de 2026. Eles mostraram que compostos usados em refrigeração, sistemas de ar-condicionado e certos anestésicos podem gerar ácido trifluoroacético (TFA) quando quebrados na atmosfera. O TFA é classificado como um “químico eterno” por sua incapacidade de se degradar de forma rápida e natural.
O problema é global e difuso. O estudo estima que entre 2000 e 2022 cerca de 335,5 mil toneladas de TFA foram depositadas na superfície da Terra, em solos, lagos, rios e até gelo de regiões remotas como o Ártico, segundo modelagem dos pesquisadores.
Os compostos que originam o TFA surgiram como substitutos dos CFCs, utilizados desde a segunda metade do século XX e banidos por sua contribuição para o desgaste da camada de ozônio. Embora os substitutos, como hidrofluorocarbonos (HFCs) e outros gases fluorados, tenham ajudado a diminuir os impactos sobre o ozônio, eles permanecem na atmosfera por décadas, permitindo que suas reações químicas liberem TFA de forma contínua.
A chuva química invisível não se parece com fenômenos conhecidos como chuva ácida tradicional, que ocorre pela reação de dióxido de enxofre e óxidos de nitrogênio formando ácidos fortes. O TFA depositado pela chuva é um ácido orgânico novo na escala global, com persistência química muito maior do que ácidos comuns na atmosfera.
O estudo chama a atenção para a persistência e deposição continuada do TFA no ambiente. Mesmo que o uso de alguns gases substitutos venha a ser reduzido no futuro, sua longa vida na atmosfera significa que o ácido continuará a se acumular por décadas.
Os pesquisadores destacam que a poluição não está restrita a áreas industriais ou urbanas. Padrões de circulação atmosférica fazem com que o TFA formado em uma região acabe depositado em outra, até mesmo em locais remotos como o Ártico. Isso mostra que o fenômeno é mundial.
Os efeitos exatos do TFA na saúde humana e nos ecossistemas ainda estão sob investigação. Algumas agências internacionais classificam o ácido como potencialmente prejudicial à vida aquática, e estudos detectaram presença da substância em amostras biológicas como sangue e urina humanas em concentrações ambientais. A preocupação cresce à medida que o estoque global de TFA aumenta de forma contínua.
A chamada chuva química invisível é mais um exemplo de como intervenções ambientais, mesmo bem-intencionadas, podem ter consequências secundárias inesperadas. Especialistas em química atmosférica dizem que o caso ressalta a necessidade de considerar efeitos de longo prazo e mecanismos de formação de novos poluentes ao desenvolver substitutos para substâncias banidas.
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