A guerra no Oriente Médio entrou no radar do Banco Central brasileiro. O mercado ainda trabalha com início do ciclo de cortes da Selic em março. O tom agora ficou menos confiante. O motivo passa pelo petróleo, pelo câmbio e pelo humor global dos investidores.
O Copom manteve a Selic em 15,00% ao ano em 28 de janeiro. Foi a quinta manutenção seguida. Na comunicação oficial e na ata, o Banco Central deixou aberta a porta para começar a reduzir os juros em março, mas avisou que a política monetária seguirá restritiva e dependente dos dados. O próprio BC ressaltou que o cenário externo continua incerto e que as tensões geopolíticas seguem no monitoramento da autoridade monetária.
O mercado embarcou nessa leitura. O Focus de 27 de fevereiro mostrou expectativa de Selic em 14,50% após a reunião de março e taxa de 12,00% no fim de 2026. A trajetória desenha um ciclo de afrouxamento. O problema é que esse desenho foi feito antes de a guerra ganhar a dimensão atual.
É nesse ponto que o conflito externo pesa. Quando a guerra ameaça a oferta de energia, o petróleo sobe. Quando o petróleo sobe, combustíveis, fretes e custos de produção tendem a subir juntos. A inflação volta a incomodar. O remédio clássico de um banco central diante desse risco é cortar juros mais devagar. Economia tem dessas ironias meio cruéis.
Nos últimos dias, o Brent fechou em US$ 81,40 por barril, o maior nível desde janeiro de 2025, e chegou a disparar cerca de 10% no mercado de balcão após a escalada militar envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel. A Reuters também relatou redução acentuada no trânsito de cargas energéticas pelo Estreito de Ormuz, corredor vital para o mercado global de petróleo. Isso amplia o risco de choque de oferta e inflação internacional.
Para o Brasil, o efeito pode vir por dois canais ao mesmo tempo. O primeiro é o dos preços. Energia mais cara pressiona a inflação. O segundo é o financeiro. Em momentos de guerra, investidores costumam buscar proteção em dólar e títulos americanos. Países emergentes, como o Brasil, ficam mais expostos à saída de capital e à volatilidade cambial. Dólar mais forte significa pressão extra sobre preços internos.
Economistas ouvidos pela CNN Brasil e pelo InfoMoney resumiram o dilema com clareza. O corte em março ainda aparece como cenário-base, mas a escalada do conflito pode levar o Banco Central a ser mais conservador do que o mercado imaginava. Em outras palavras, o início do ciclo pode até ocorrer, mas o ritmo tende a ficar menor se petróleo, câmbio e percepção de risco seguirem pressionados.
Esse cuidado faz sentido dentro da lógica atual do BC. As expectativas de inflação para 2026 e 2027 ainda estão acima da meta de 3%. Na ata de janeiro, o Copom registrou projeções de 4,0% e 3,8% para esses dois anos, segundo a Focus. Com esse pano de fundo, qualquer choque externo relevante vira motivo para pisar no freio com mais delicadeza. Banco central não gosta de surpresas. E guerra costuma ser uma fábrica industrial de surpresas.
O cenário doméstico ajuda a explicar por que o mercado ainda fala em queda de juros. A economia perdeu fôlego. A Reuters informou que o IBC-Br mostrou crescimento de 2,5% em 2025, abaixo dos 3,4% do ano anterior, embora acima do esperado. Esse enfraquecimento da atividade abre espaço para juros menores. Só que espaço não é convite automático. É apenas a sala disponível. Quem decide entrar nela é a inflação.
A perspectiva mais provável, neste momento, parece ser a seguinte. O Copom ainda pode iniciar os cortes em março. O ciclo, porém, pode ficar mais curto ou mais lento do que o mercado projetava há poucos dias. Se a guerra perder força, o BC ganha conforto. Se petróleo e dólar seguirem em alta, a autoridade monetária tende a preferir doses menores de alívio. No Brasil, às vezes a Selic olha para Brasília. Desta vez, ela também olha para Teerã, Washington e Tel Aviv.
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