Sustentabilidade

Lodo de esgoto tratado vira fertilizante agrícola e reabre debate sobre segurança e economia

Uso controlado de biossólidos pode reduzir custos e reciclar nutrientes, mas exige normas e monitoramento

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Resíduos de estações de tratamento de esgoto, antes vistos apenas como problema ambiental, vêm ganhando novo papel. Em projetos controlados no Brasil e no mundo, o lodo de esgoto tratado passou a ser utilizado como fertilizante agrícola em substituição parcial a insumos químicos, com potencial para reduzir custos de produção e reciclar nutrientes essenciais aos solos agrícolas.

Chamado tecnicamente de biossólido quando tratado e estabilizado, esse material contém matéria orgânica, nitrogênio, fósforo e micronutrientes que são essenciais ao desenvolvimento das plantas. O reaproveitamento surgiu como alternativa para dar um destino útil a resíduos urbanos inevitáveis e, ao mesmo tempo, fortalecer a agricultura sustentável em regiões pobres ou com solos degradados. 

Do resíduo ao fertilizante

O lodo de esgoto é o resíduo sólido que sobra depois que o esgoto passa por tratamento em estações de tratamento de água ou esgoto. Historicamente, esse material foi descartado em aterros sanitários, gerando custos altos para municípios e companhias de saneamento. O volume e o custo de disposição constituem um problema crescente conforme aumentam as redes de coleta de esgoto.

A partir dos anos 2000, pesquisadores brasileiros da Universidade de São Paulo (USP), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp) começaram a testar o uso agrícola do biossólido sob condições controladas. Os estudos são feitos em parceria com companhias de saneamento, como a Sabesp, e seguem critérios técnicos definidos pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), especialmente após a Resolução Conama nº 375/2006, que estabeleceu regras para aplicação em solo agrícola.  

Benefícios agronômicos e econômicos

Pesquisas científicas demonstram que os biossólidos podem melhorar a eficiência do fósforo no solo e contribuir para a produção de pastagens usadas para alimentação animal. Estudos indicam que a mistura de lodo com materiais minerais, formando fertilizantes organominerais, melhora a disponibilidade de nutrientes e pode aumentar a produtividade em comparação a solos sem adição de fósforo.  

Além disso, o uso de biossólidos atua como condicionador de solo, aumentando sua matéria orgânica e melhorando propriedades físicas, químicas e biológicas. Isso é especialmente relevante em solos tropicais que tendem a ser pobres em nutrientes e matéria orgânica natural.  

Para o setor de saneamento, a aplicação agrícola dos biossólidos pode reduzir custos associados à disposição em aterros, onde taxas são normalmente calculadas com base no peso do resíduo. A prática permite transformar um custo sanitário em um insumo valioso para a agricultura.  

Experiências globais

O conceito já é consolidado em países como Estados Unidos, Espanha, França, Alemanha e Reino Unido, onde a reutilização agrícola de biossólidos é regulamentada há décadas e executada sob normas ambientais rigorosas. Em algumas regiões, esse uso faz parte de estratégias de economia circular para reciclar nutrientes e reduzir a dependência de fertilizantes minerais importados.

Segurança, regulação e debates

Apesar dos benefícios, o uso de biossólidos em agricultura levanta preocupações sobre segurança sanitária e ambiental. Biossólidos podem conter microrganismos patogênicos e metais pesados se não forem adequadamente processados e monitorados. Por isso, regulamentações como a do Conama no Brasil estipulam critérios de tratamento e limites para aplicação no solo.  

Nos Estados Unidos, por exemplo, a Environmental Protection Agency (EPA) alertou sobre potenciais riscos à saúde associados ao uso de biossólidos devido à presença de substâncias químicas persistentes em algumas amostras, embora enfatize que os riscos ao suprimento geral de alimentos são controlados quando normas são cumpridas.  

A necessidade de monitoramento contínuo do solo e da saúde humana e ambiental se torna evidente à medida que a prática se expande. Especialistas destacam que a integração de biossólidos à agricultura deve ser feita com avaliação de riscos, qualidade de processamento e adaptação às condições locais.

O futuro do uso de biossólidos

Com a tendência global de busca por soluções mais sustentáveis, o reaproveitamento de lodo de esgoto tratado pode ganhar impulso como alternativa ao descarte em aterros e como fonte local de nutrientes para a agricultura. A prática pode contribuir para modelos de economia circular, reduzindo o impacto ambiental dos resíduos urbanos e dos fertilizantes químicos.

No entanto, a expansão depende de investimentos em tecnologia de tratamento, rigor regulatório e sistemas de certificação que garantam a inocuidade do material aplicado ao solo.

Foto: Ivan Monteiro

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