O programa da FM Educativa 104.7 de MS, “O Assunto é Cinema analisa o documentário “Orwell: 2+2=5”. Produzido e apresentado pelos jornalistas Clayton Salles e Daniel Rockenbach, o quadro vai ao ar todas as quintas, às 20h (horário de MS), pela rádio Educativa 104.7 FM.
NOTA E CRÍTICA – Clayton Sales
O ASSUNTO É CINEMA analisa “Orwell: 2+2=5”. É um documentário biográfico sobre o escritor indo-britânico Eric Arthur Blair, conhecido pelo pseudônimo de George Orwell. O foco é o período em que passou a viver na Ilha de Jura, na Escócia, onde terminou de escrever sua obra-prima, o romance “1984” (1949). O documentário se baseia nos diários que Orwell escreveu durante essa estada e em trechos do próprio livro e de outros, como “Dias na Birmânia” (1934) e “Revolução dos Bichos” (1945).
O título do filme revela seu caráter duplo. A conta matemática 2+2=5 consta em “1984” como uma forma de simbolizar a essência do governo autoritário do Grande Irmão. Mesmo sendo um erro básico, se o governo diz que a conta está certa, então, deve ser aceita e ponto. Essa alegoria puxa o fio que o documentário desenvolve por meio de uma estrutura ousada, repleta de artefatos dramáticos e estéticos, mas que em vários momentos se embaralham. Um problema no roteiro do Raoul Peck que, talvez na ânsia de abraçar o máximo de associações atuais com a distopia de Orwell, não se aprofunda em experiências tirânicas mais urgentes, como os EUA de Donald Trump. Questão de foco.
Por outro lado, ele desmistifica a ideia de que a crítica do escritor era dirigida apenas a regimes comunistas como a União Soviética de Stalin. Orwell se definia como um socialista democrático, que acreditava na verdadeira liberdade obtida a partir de uma sociedade igualitária e diversa. Esse posicionamento só não fica mais claro porque o roteiro tenta literalmente abraçar o mundo.
Os recursos técnicos são de encher os olhos e os ouvidos. Visualmente, o filme cativa pela sobreposição quase caótica de imagens de arquivo, bem como fotografias pessoais de George Orwell. Além disso, ele utiliza muitas cenas de filmes relacionados direta e indiretamente com o pensamento orwelliano, com a adaptação de Michael Radford. Em vários momentos, o uso foi exagerado, dando a sensação de um mero preenchimento de espaços, pois alguns trechos poderiam ser enxugados e até dispensados.
Claro que o intuito era não apenas contar a jornada de vida do escritor, mas fazer uma espécie de radiografia de seus temores sociais e políticos. Porém, nada tiraria os méritos dessa proposta edificante se o filme abrisse mão das quase duas horas de duração em prol de um material mais conciso. Conciso, porém, sem perder o tom dramático que, no fim das contas, é o grande atrativo do documentário.
Outros elementos colaboram para a boa experiência do filme. Um deles é a trilha sonora sombria de Alexei Aigui, que permeia quase todo o filme, transformando essa biografia documental no testemunho aflito de um homem sinceramente preocupado com o mundo em que vivia. Também contribui para esse efeito dramático a narração do ator britânico Damian Lewis, que, de certa forma, interpreta um George Orwell entre o estado de saúde precário e o perspicaz analista do mundo que narra suas agonias nos diários que redigiu.
O resultado é tão intenso e ao mesmo tempo melancólico que parece que ouvimos o próprio escritor contando sua vida naquela quadra. Além disso, esse é um ponto em que o roteiro acerta, com a colocação inteligente dos textos de Orwell que, em várias passagens, coloca o atabalhoado filme nos eixos novamente.
“Orwell: 2+2=5” é um bom filme, com um roteiro que tenta se equilibrar entre a objetividade histórica e factual da biografia, e o olhar autoral sobre o pensamento central que norteou a vida de George Orwell. Nem sempre consegue, a direção lança mão de recursos que, ora compensam as falhas, ora não tem esse êxito, mas o saldo final é positivo. Positivo pela produção em si, pois se trata de uma obra que se preocupa em transmitir as justificáveis angústias do escritor e jornalista para nossos tempos. Mais ainda porque a realidade e as perspectivas não parecem animadores quanto à ascensão de variadas formas de autoritarismo no mundo.
Ao explorar conceitos associados ao pensamento orwelliano, especialmente no livro “1984”, com fatos de hoje, a mensagem que Raoul Peck passa é alarmante. Se a novilíngua de hoje que infesta a imprensa ocidental, incluindo a brasileira, transforma o massacre de crianças em Gaza e no Irã em mera “ação militar”; se o presidente estadunidense que financia bombardeios assassinos quer o Nobel da Paz, traduzindo com perfeição a máxima “guerra é paz”; e se nosso país ama o Big Brother Brasil, inspirado na terrível metáfora de “1984”, para cada cidadão comum se sentir um “grande irmão” na “casa mais vigiada do Brasil”, então, George Orwell transcende sua vida carnal nos pavores e preocupações que encontram um assustador reflexo.
Confira trailer:
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