Um novo relatório do Instituto da ONU para Água, Meio Ambiente e Saúde (UNU-INWEH) afirma que o planeta entrou em um estado de “falência global das águas” em 2026. A expressão descreve uma condição estrutural na qual humanos extraem mais água do que os sistemas naturais conseguem repor, e muitos reservatórios deixaram de retornar aos níveis históricos após secas ou uso intenso. O documento redefine a crise hídrica, propondo uma mudança no modo como governos e instituições tratam a água como recurso essencial.
O relatório, intitulado Global Water Bankruptcy: Living Beyond Our Hydrological Means in the Post-Crisis Era, foi lançado em 20 de janeiro de 2026 pelo UNU-INWEH. Ele explica que antigos termos como “escassez de água” ou “crise hídrica” já não capturam a realidade atual para muitas bacias e aquíferos, pois a capacidade de recuperação natural foi perdida em larga escala.
Segundo o documento, a “falência hídrica” se dá quando a extração de água superficial e subterrânea excede consistentemente o fluxo renovável natural e quando a perda de capital natural relacionado à água se torna irreversível sem custos sociais, econômicos ou ambientais enormes.
Diagnóstico global alarmante
O relatório destaca que mais de 70% dos grandes aquíferos globais mostram tendência contínua de declínio. Assim, muitas reservas de água subterrânea perderam capacidade de armazenamento ou sofreram compactação definitiva.
Áreas úmidas naturais, essenciais para a recarga de água e a regulação do ciclo hidrológico, sofreram a maior perda nas últimas décadas. Segundo estimativas citadas no estudo, cerca de 410 milhões de hectares de zonas úmidas desapareceram nos últimos 50 anos, área comparável ao tamanho da União Europeia.
O relatório também indica que quase 75% da população mundial vive em países classificados como hídricos inseguro ou criticamente inseguro, com falta crônica de acesso confiável à água em larga parte do ano.
Especialistas lembram que a água doce continua no planeta. O problema, segundo o estudo, é que grande parte dela deixa de ser economicamente acessível ou ecologicamente funcional, por causa de poluição, superexploração ou degradação dos sistemas naturais.
Impactos no Brasil e no mundo
O relatório do UNU-INWEH não apresenta dados específicos sobre o Brasil, mas a situação hídrica do país também mostra pressões crescentes. Relatórios nacionais apontam que muitas regiões brasileiras, especialmente no semiárido e em áreas de irrigação intensa, enfrentam redução de vazões ecológicas, sobre-exploração de aquíferos e perda de qualidade da água.
No caso brasileiro, a Agência Nacional de Águas (ANA) classifica a maior parte do território com níveis baixos de comprometimento hídrico, mas regiões leste e sudeste, onde está concentrada a maior parte da população e da economia, exibem maior pressão sobre os recursos. Áreas agrícolas com irrigação intensiva também se aproximam de limites críticos de uso sustentável.
Esse cenário reflete desafios comuns a outras partes do mundo, nos quais a água torna-se não apenas um recurso escasso, mas um fator de segurança alimentar, econômica e social. A agricultura, por exemplo, consome cerca de 70% da água doce retirada globalmente, o que eleva os riscos de insegurança alimentar e volatilidade nos preços de alimentos caso os recursos continuem em declínio.
Caminhos para reverter a falência hídrica
Para enfrentar esse novo paradigma, o relatório insta governos e gestores a mudar de uma lógica de gestão de crises para uma lógica de gestão de “falência hídrica”. O enfoque, segundo o documento, deve ir além de medidas emergenciais e abraçar políticas que:
- reconheçam e diagnostiquem formalmente bacias e sistemas falidos;
- priorizem a proteção de capital natural, como áreas úmidas, aquíferos e florestas;
- transformem setores de alta demanda por água, especialmente a agricultura intensiva;
- garantam transições justas, com apoio a comunidades e trabalhadores afetados pelas mudanças no uso da água.
Essas ações buscam reduzir a demanda absoluta por água e proteger os processos hidrológicos naturais, em vez de apenas ampliar oferta por novas infraestruturas ou eficiências pontuais.
O relatório também coloca a água como plataforma de cooperação internacional. Por ser essencial para todos os países, a água pode servir para alinhar prioridades climáticas, de segurança alimentar e de desenvolvimento, abrindo espaço para diálogos multilaterais mais amplos na agenda política global.
É possível reverter?
Os cientistas da ONU afirmam que nem todos os sistemas estão irremediavelmente perdidos, e que ações estruturadas e antecipadas podem reduzir danos futuros e fortalecer a resiliência dos recursos hídricos. Contudo, a reversão completa dos impactos já instalados em muitos aquíferos, lagos e zonas úmidas pode ser impraticável em escalas de tempo humana se mudanças profundas nos padrões de uso e gestão não ocorrerem rapidamente.
Foto: AgênciaBrasil
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