Um novo relatório da Oxfam traz um dado que ajuda a dimensionar o tamanho da desigualdade climática no mundo. A Oxfam é uma confederação internacional de organizações que atua em mais de 90 países com foco no combate à pobreza, às desigualdades e às injustiças sociais, além de produzir estudos amplamente usados por governos e organismos internacionais. Em apenas dez dias de 2026, segundo o levantamento, o grupo que reúne o 1% mais rico da população global já consumiu toda a sua “cota” anual de emissões de carbono compatível com o objetivo de limitar o aquecimento do planeta a 1,5 grau Celsius. Dentro desse grupo, a situação é ainda mais extrema. O 0,1% mais rico esgotou esse limite nos três primeiros dias do ano.
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O estudo parte de um conceito simples. Para que o mundo tenha chance de cumprir a meta do Acordo de Paris, existe um volume máximo de carbono que pode ser emitido por pessoa ao longo do ano. Quando se distribui esse orçamento de forma igual, fica evidente o descompasso. Enquanto a maioria da população global consome pouco carbono, uma parcela muito pequena concentra emissões em ritmo acelerado.
Segundo a Oxfam, o 1% mais rico concentra cerca de 45% da riqueza mundial, mas responde por uma fatia desproporcional das emissões globais. Em termos práticos, esse grupo emite, em média, quase o mesmo volume de carbono que bilhões de pessoas juntas. Já o 0,1% mais rico, formado por bilionários, grandes investidores e executivos de alto padrão de consumo, tem uma pegada de carbono dezenas de vezes maior do que a média mundial.
O relatório aponta que o padrão de consumo é o principal fator por trás dessa distorção. Viagens frequentes em jatos particulares, uso intensivo de iates, grandes imóveis com alto gasto energético e investimentos em setores altamente poluentes pesam mais do que hábitos individuais como alimentação ou transporte cotidiano. Em outras palavras, não se trata apenas de estilo de vida, mas de decisões econômicas e financeiras.
O impacto vai além das estatísticas. A Oxfam destaca que os efeitos da crise climática recaem de forma mais dura justamente sobre quem menos contribuiu para o problema. Populações de baixa renda, países em desenvolvimento e comunidades vulneráveis enfrentam eventos extremos, insegurança alimentar e perdas econômicas, mesmo tendo uma pegada de carbono muito menor.
O relatório reforça o debate sobre justiça climática e políticas públicas. Entre as propostas estão impostos mais altos sobre grandes fortunas, regulação de ativos intensivos em carbono e maior responsabilização de empresas e investidores. A organização argumenta que sem enfrentar a desigualdade nas emissões, os esforços individuais e as metas nacionais terão efeito limitado.
O estudo também chama atenção para o ritmo do problema. Se nada mudar, a concentração de emissões no topo da pirâmide econômica tende a inviabilizar os compromissos climáticos globais, mesmo com avanços em energias renováveis e eficiência energética. O desafio, segundo a Oxfam, não é apenas reduzir emissões, mas decidir quem precisa reduzir mais e com que velocidade.
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