AGORA 104

19 anos da Lei Maria da Penha: Por que ainda é tão difícil identificar um agressor ?

Compartilhar
Compartilhar

Neste mês de agosto, a Lei Maria da Penha completa 19 anos. Considerada um marco histórico no combate à violência contra a mulher, a legislação é reconhecida internacionalmente por seu avanço jurídico. Ainda assim, quase duas décadas depois, uma pergunta inquietante continua ecoando: por que ainda é tão difícil identificar um agressor?

No imaginário coletivo, o agressor é muitas vezes representado como um estranho, um monstro escondido na escuridão de uma rua qualquer. Mas a realidade é bem diferente.

“O agressor é muitas vezes aquele colega de trabalho que chega no horário, é gentil com todos, leva bolo para a equipe e parece irrepreensível”, alerta Samira Bueno, diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em visita a Campo Grande para um seminário, ela reforçou a importância de desconstruir o estereótipo do agressor como o “marginal clássico”. “Essa visão distorcida contribui para a impunidade”, completa.

Segundo Samira, a violência está enraizada em padrões culturais, muitas vezes naturalizados ao longo de gerações. Romper com essas narrativas exige mais do que leis: exige coragem para mudar comportamentos e valores sociais.

Feminicídio no Mato Grosso do Sul: o retrato da urgência
Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública colocam o Mato Grosso do Sul como o segundo estado com a maior taxa proporcional de feminicídios do país — atrás apenas do Mato Grosso. E o dado mais alarmante: mais de 90% das vítimas nunca tiveram medida protetiva. O silêncio, nesse contexto, continua sendo o maior aliado do agressor.

“A agressão física quase sempre é o último estágio de uma escalada de violências invisíveis: psicológica, moral, emocional”, afirma o delegado André Matsushita, em entrevista à coluna “Fala, Delegado”.

O delegado reforça que a violência contra a mulher não pode ser tratada apenas como “caso de polícia”, mas como uma questão estrutural. Para ele, a prevenção precisa começar ainda na infância, nas escolas, com meninos aprendendo desde cedo o que é respeito, empatia e igualdade de gênero.

Confira :

“Uma coisa é tentar mudar um homem adulto já violento. Outra, muito mais eficaz, é impedir que ele se torne violento”, defende.

Violências que não deixam marcas no corpo
A Lei Maria da Penha tipifica cinco formas de violência: física, psicológica, moral, sexual e patrimonial. E muitas vezes, os sinais são sutis e silenciosos.

Psicológica: o controle emocional e o isolamento da vítima.

Moral: injúrias, difamações e calúnias.

Sexual: estupros, inclusive dentro do casamento, ainda são comuns — e muitas vezes naturalizados.

Patrimonial: desde o controle de cartões de crédito até a destruição de objetos da mulher, como celulares e documentos, para impedir sua autonomia.

“A quebra de um celular, por exemplo, pode não ser apenas dano ao patrimônio, mas uma forma de isolar a vítima e impedi-la de pedir ajuda”, alerta o delegado.

O papel de toda a sociedade
A responsabilidade pelo combate à violência doméstica não é apenas do Estado. Samira Bueno ressalta a importância do envolvimento da sociedade civil, setor privado, movimentos sociais e escolas.

Ela destaca segmentos tradicionalmente masculinos, como a construção civil, como espaços que também precisam abrir diálogo sobre o tema. “Como um encarregado de obra pode falar sobre violência com seus funcionários? Como a empresa pode apoiar mulheres vítimas?”, questiona.

Feminicídio após o divórcio: o perigo continua
Engana-se quem acredita que o fim do relacionamento encerra o ciclo de violência. Para muitas mulheres, o momento de maior perigo é justamente após a separação. O ex-companheiro, ao perceber que “perdeu o controle”, pode reagir com ainda mais violência.

Casos de feminicídio cometidos por ex-parceiros são cada vez mais frequentes, e especialistas alertam para um período de luto emocional que pode durar até um ano, tempo em que a vítima está mais vulnerável à recaída ou novas agressões.

Hibristofilia: o amor pelo agressor
Um dado perturbador mencionado durante a entrevista foi o caso de Igor Cabral, flagrado agredindo brutalmente sua companheira em um elevador. Mesmo após a repercussão negativa, ele recebeu mais de 1.500 mensagens de mulheres interessadas.

Esse comportamento, segundo o delegado Matsushita, tem nome: hibristofilia — uma parafilia que envolve atração por criminosos violentos. “É um sintoma de um adoecimento social. Precisamos falar sobre isso”, reforça.

Compartilhar

Deixe um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados
AGORA 104

Saúde do homem: sinais silenciosos exigem atenção e cuidado

O programa “Agora 104”, da FM Educativa MS 104.7, trouxe à pauta...

AGORA 104

Economia em alta pressão desafia famílias em Campo Grande

Diante do atual cenário econômico enfrentado pelo país, com reflexos diretos em...

AGORA 104

Abril Verde reforça conscientização sobre segurança e saúde no trabalho

O Abril Verde é uma campanha nacional de conscientização sobre segurança e...

AGORA 104

Cuidados Paliativos para Idosos são tema de entrevista no programa “Agora 104”

O programa “Agora 104”, da FM Educativa MS 104.7, abordou no quadro...